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Conheça a síndrome que faz algumas pessoas terem certeza de que morreram
Em 1880, uma mulher de 43 anos dizia que não tinha cérebro, estômago ou intestinos. O caso ajudou a formar o conceito da síndrome de Cotard, em que algumas pessoas chegam a acreditar que morreram.
Como seria ter certeza de que você morreu, mesmo estando vivo?
Para algumas pessoas, essa não é uma metáfora para descrever tristeza ou sofrimento. É uma convicção. Elas podem acreditar que morreram, que deixaram de existir ou que partes do próprio corpo desapareceram.
Esse fenômeno raro é conhecido como síndrome de Cotard.
A história que ajudou a dar origem ao conceito começou em Paris, em 1880, quando o médico francês Jules Cotard descreveu uma mulher de 43 anos com crenças incomuns sobre o próprio corpo.
Uma mulher que dizia ter perdido partes do corpo
Identificada apenas como “Mademoiselle X”, a paciente dizia não ter cérebro, nervos, tórax, estômago ou intestinos.
Para ela, restavam apenas pele e ossos.
A negação ia além do corpo. Ela também afirmava não ter alma e dizia que Deus e o diabo não existiam.
A mulher acreditava ainda que não precisava comer e que não poderia morrer de uma morte natural.
Cotard apresentou o caso em Paris, em 28 de junho de 1880, ao descrever uma forma grave de melancolia ansiosa.
Como surgiu a síndrome de Cotard?
Em 1882, Cotard publicou outro trabalho e usou a expressão francesa délire des négations, ou “delírio de negação”.
O termo descrevia casos em que a pessoa negava de maneira extrema aspectos de si mesma, como o próprio corpo, a identidade ou a existência.
A expressão síndrome de Cotard surgiu posteriormente e é geralmente atribuída ao psiquiatra francês Emil Régis, em 1893.
Por isso, a mulher de 1880 não recebeu o diagnóstico moderno. Seu relato foi um dos casos históricos que ajudaram a descrever o fenômeno.
Quando alguém acredita que está morto
A manifestação mais conhecida é a crença de que a própria pessoa morreu.
Ela pode conversar, caminhar e interagir normalmente com quem está ao redor, mas estar convencida de que seu corpo não funciona mais ou de que sua existência terminou.
Em outros casos, a ideia aparece de outra forma. A pessoa pode acreditar que perdeu órgãos, que não possui sangue ou que seu corpo está vazio.
É diferente de dizer que alguém está “morto por dentro” depois de uma experiência dolorosa.
Na síndrome de Cotard, a crença pode ser literal e vivida como realidade.
Para quem está de fora, isso parece impossível. Para quem vivencia o quadro, porém, a ideia pode fazer sentido dentro da maneira como está percebendo o próprio corpo e a própria existência.
Por que isso acontece?
A ciência ainda não sabe exatamente por que a síndrome de Cotard acontece.
Uma das hipóteses é que alterações na forma como o cérebro percebe o próprio corpo e a própria existência contribuam para essas crenças.
Estudos já encontraram alterações em diferentes áreas do cérebro em alguns pacientes, mas os casos são raros e não existe uma única alteração capaz de explicar a síndrome.

O que pode levar alguém a acreditar que morreu?
A síndrome de Cotard costuma aparecer associada a quadros psiquiátricos graves, principalmente depressão com sintomas psicóticos.
Também há relatos em pessoas com transtorno bipolar e esquizofrenia.
Ela ainda pode ocorrer em associação com condições neurológicas, como acidente vascular cerebral, epilepsia, traumatismos cranianos, demências, doença de Parkinson e encefalites.
Existe tratamento?
Sim. O tratamento depende principalmente da condição associada aos sintomas.
Quando o fenômeno aparece em um quadro grave de depressão com sintomas psicóticos, por exemplo, podem ser utilizados antidepressivos e antipsicóticos.
Em situações graves, a eletroconvulsoterapia (ECT), tratamento que utiliza estímulos elétricos controlados no cérebro sob anestesia, também pode ser considerada.
A avaliação médica é especialmente importante quando a pessoa deixa de comer ou beber por acreditar que não precisa desses cuidados ou apresenta risco de autoagressão.
Mais de um século depois do caso descrito por Jules Cotard, a medicina consegue reconhecer experiências em que uma pessoa acredita ter morrido, investigar possíveis alterações envolvidas e tratar as condições associadas.
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