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O lado mais bonito da superdotação também pode doer
Uma das características mais bonitas da superdotação — e, ao mesmo tempo, uma das que mais pode gerar sofrimento — é justamente a profundidade emocional.
A sensibilidade e a profundidade emocional costumam estar presentes em pessoas superdotadas.
No entanto, a forma como isso se manifesta pode ser muito diferente de pessoa para pessoa.
A maneira como expressamos nossas emoções é moldada pelas experiências que tivemos ao longo da vida, pelas ferramentas de aprendizado que recebemos e pelos mecanismos de reforço presentes no ambiente em que crescemos.
Por isso, embora a sensibilidade emocional seja uma característica comum, a forma como ela aparece é muito individual.
Quando a superdotação aparece como ansiedade ou depressão
Na prática clínica, muitas vezes o que leva o paciente ao consultório pela primeira vez é uma queixa relacionada ao humor.
Antes de se pensar em superdotação, o mais comum é que a pessoa procure ajuda por causa de ansiedade ou sintomas depressivos.
Quando o contexto é investigado com mais cuidado, frequentemente aparece um padrão que acompanha o paciente ao longo da vida: um certo desajuste entre a forma como ele respondeu às situações e a forma esperada de responder a elas.
Nesse processo de investigação, começa a ficar claro que existe um modo de funcionamento muito próprio, um modo de funcionamento neurodivergente.
Nesses casos, não estamos falando apenas de sintomas ansiosos ou depressivos isolados.
Muitas vezes são queixas emocionais decorrentes de um modo de funcionamento cognitivo que não encontrou ajuste ao longo da vida, algo que se relaciona diretamente com essa sensibilidade emocional mais intensa.
Superdotação não é doença
Quando falamos sobre cuidado nesse contexto, é importante lembrar que superdotação não é uma doença, é uma condição.
Por isso, muitas vezes prefiro não usar a palavra “tratamento”. Gosto mais de usar a ideia de direcionamento.
A partir do momento em que existe um diagnóstico adequado, é possível construir um plano terapêutico que ajude a pessoa a compreender melhor o próprio funcionamento cognitivo e emocional.
Um dos pilares desse processo é o aprendizado de autorregulação emocional, que costuma ser desenvolvido com o apoio de uma equipe multidisciplinar, especialmente com acompanhamento psicológico e ferramentas terapêuticas baseadas em evidências.
Por que muitas pessoas superdotadas duvidam da própria inteligência
Recebi certa vez uma mensagem que dizia: “Tenho todas as características de superdotação, exceto a inteligência. É o pior dos dois mundos.”
Eu adorei essa mensagem. Curiosamente, ela costuma aumentar minha suspeita clínica.
Pessoas com superdotação normalmente não se consideram inteligentes o suficiente.
Isso acontece porque têm uma mente extremamente ativa, inclusive para mapear os próprios erros o tempo todo.
Essa autocrítica constante faz com que muitas delas duvidem do diagnóstico, mesmo depois de uma avaliação cuidadosa.
Redes sociais não são diagnóstico
A divulgação sobre superdotação nas redes sociais tem um objetivo importante: aumentar a consciência sobre essa condição.
Mas conteúdos online não servem para autodiagnóstico.
A ideia é que, ao se identificar com algumas características, a pessoa busque uma avaliação séria e específica, feita por profissionais que trabalham com esse tipo de investigação.
O diagnóstico de superdotação é um diagnóstico complexo e cuidadoso.

O mascaramento da superdotação
Também é possível que uma criança apresente características claras de superdotação e que esses sinais pareçam menos evidentes na vida adulta.
Isso pode acontecer por causa de um mecanismo chamado mascaramento.
Na maioria das vezes, esse processo não acontece de forma consciente.
Ao longo da vida, a pessoa pode aprender a ajustar comportamentos ou adaptar a forma como expressa suas características para se encaixar melhor em determinados contextos.
Esse mascaramento pode tornar o diagnóstico mais difícil na fase adulta.
Quantas pessoas são superdotadas?
Estudos indicam que a prevalência da superdotação na população geral varia entre 2% e 5%.
Embora não seja uma condição extremamente rara, ainda existe pouca conscientização sobre o tema, tanto na população quanto entre profissionais de saúde.
Por isso, quando existe suspeita, o mais importante é buscar uma avaliação cuidadosa e multiprofissional, conduzida por profissionais que tenham experiência no assunto.
Um diagnóstico bem feito pode ajudar a pessoa a compreender melhor o próprio funcionamento, sua sensibilidade emocional e a maneira particular como percebe o mundo.
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