Mães com TDAH e autismo: quando o diagnóstico também mora em você

A maternidade costuma ser descrita como uma experiência transformadora. Mas, para muitas mulheres com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou Transtorno do Espectro Autista (TEA), ela também pode ser um espelho desconfortável, capaz de revelar dificuldades que passaram anos sem nome, sem compreensão e, muitas vezes, acompanhadas de culpa.

Grande parte das discussões sobre maternidade atípica se concentra, legitimamente, nos desafios de criar uma criança neurodivergente.

Existe, porém, uma outra perspectiva que ainda aparece pouco: o que acontece quando a própria mãe também vive uma condição neuroatípica?

Na prática clínica, essa realidade aparece cada vez mais.

Mulheres adultas chegam ao consultório depois do diagnóstico dos filhos percebendo que muitas dificuldades da própria vida talvez nunca tenham sido “preguiça”, “desorganização”, “frieza” ou “exagero emocional”, como ouviram durante anos.

Em muitos casos, a maternidade não cria sintomas inéditos; ela apenas torna impossível continuar mascarando aquilo que já existia.

Quando a maternidade expõe sinais de TDAH e autismo

No TDAH, a maternidade pode ampliar desafios ligados à função executiva: organizar rotinas, lembrar compromissos, administrar horários, sustentar atenção em múltiplas demandas simultâneas e lidar com sobrecarga constante.

Existe ainda a desregulação emocional, frequentemente negligenciada quando se fala em mulheres adultas com TDAH.

Irritabilidade, sensação de fracasso recorrente, explosões emocionais e exaustão mental acabam sendo interpretadas apenas como sinais de incapacidade materna, quando muitas vezes fazem parte de um funcionamento neurobiológico específico.

Já no espectro autista, os impactos podem surgir em outras camadas.

Algumas mulheres relatam sofrimento intenso diante do excesso de estímulos sensoriais da maternidade: barulho constante, toque frequente, privação de rotina e imprevisibilidade.

Outras descrevem dificuldade em interpretar demandas emocionais do filho ou em corresponder ao modelo social esperado de maternidade afetivamente expansiva e intuitiva.

E talvez um dos aspectos mais dolorosos seja justamente a comparação.

Muitas mães passam anos observando outras mulheres aparentemente conseguindo sustentar vínculos, rotina e maternidade com naturalidade, enquanto elas mesmas vivem a sensação contínua de inadequação.

Antes do diagnóstico, poucas conseguem compreender por que determinadas experiências parecem tão mais difíceis para elas.

Depois dele, vem não apenas o alívio da explicação, mas também o luto pelo tempo vivido em culpa.

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O diagnóstico tardio de mulheres com TDAH e TEA

Existe ainda um fenômeno contemporâneo que exige cautela: a banalização diagnóstica nas redes sociais.

Se, por um lado, as plataformas digitais ampliaram o acesso à informação e permitiram que muitas mulheres finalmente se reconhecessem em relatos antes invisibilizados, por outro também contribuíram para transformar sofrimento psíquico em conteúdo simplificado e comportamentos humanos em listas rápidas de sintomas.

Nem toda dificuldade cotidiana representa um transtorno mental. Nem toda exaustão materna é TDAH. Nem toda introversão é autismo.

O risco de transformar variabilidades naturais do comportamento humano em diagnósticos definitivos é perder justamente a complexidade que essas condições exigem.

Diagnóstico não deve funcionar como identidade pronta nem como tendência de internet. Ele precisa partir de avaliação séria, criteriosa e contextualizada.

Ao mesmo tempo, minimizar o sofrimento dessas mulheres também é um erro.

Durante décadas, mulheres foram subdiagnosticadas tanto no TEA quanto no TDAH porque aprendiam, desde cedo, a compensar dificuldades, imitar comportamentos sociais esperados e silenciar desconfortos.

Muitas desenvolveram estratégias sofisticadas de mascaramento social que funcionavam até a chegada da maternidade, momento em que o volume de demandas emocionais, cognitivas e sensoriais ultrapassa a capacidade de compensação.

Talvez por isso tantas mães descrevam o nascimento dos filhos não apenas como transformação afetiva, mas como um ponto de ruptura interna.

Falar sobre mães neuroatípicas não é criar uma nova categoria identitária nem romantizar sofrimento.

É reconhecer que a saúde mental materna também precisa considerar neurodiversidade, singularidade e contexto.

É compreender que algumas mulheres não falharam em corresponder a um modelo idealizado de maternidade; talvez apenas tenham passado tempo demais tentando funcionar dentro de padrões que nunca contemplaram suas formas particulares de existir.

E talvez o maior desafio esteja justamente aí: construir uma conversa séria, responsável e empática, distante tanto da banalização das redes quanto do silêncio que, por muitos anos, deixou essas mulheres sem nome para aquilo que sentiam.

Porque, às vezes, o diagnóstico do filho não revela apenas uma condição na criança. Ele ilumina, pela primeira vez, a história inteira da mãe.

*Fabricia Signorelli é psiquiatra especialista em TEA, TDAH e altas habilidades, pesquisadora do Ambulatório de TDAH da UNIFESP. CRM 113405 / RQE 75230

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Fabricia Signorelli
Dra. Fabricia Signorelli

Fabricia Signorelli é psiquiatra especialista em TEA, TDAH e altas habilidades, pesquisadora do Ambulatório de TDAH da UNIFESP. CRM 113405SP- RQE 75230

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