5 medicamentos comuns em casa que podem prejudicar os rins quando usados sem orientação

Aquela caixa de medicamentos guardada em casa pode parecer inofensiva. Afinal, são remédios que muitas pessoas já usaram para aliviar uma dor de cabeça, uma dor nas costas, uma inflamação ou até mesmo um desconforto depois de um esforço físico.

O problema começa quando o medicamento passa a ser utilizado por conta própria, repetidamente ou em situações nas quais o organismo já está mais vulnerável.

Como farmacêutica, considero importante fazer um alerta que muitas vezes passa despercebido:

alguns medicamentos comuns podem interferir no funcionamento dos rins, principalmente quando são utilizados em doses inadequadas, por períodos prolongados ou por pessoas que apresentam determinados fatores de risco.

Entre os medicamentos que merecem atenção estão os anti-inflamatórios não esteroides, conhecidos pela sigla AINEs.

Separamos cinco exemplos de medicamentos nefrotóxicos (que são tóxicos aos rins) que aparecem com frequência no dia a dia.

Alguns medicamentos podem interferir em mecanismos que ajudam a manter o fluxo sanguíneo nos rins. Em determinadas situações, essa alteração pode contribuir para uma redução da função renal e até para uma lesão renal aguda.

O risco é especialmente relevante quando existem outros fatores associados, como desidratação ou uso concomitante de determinados medicamentos.

Por isso, conhecer os medicamentos que fazem parte da rotina é uma das maneiras de evitar que a automedicação aparentemente inofensiva se transforme em um problema.

1. Ibuprofeno

O ibuprofeno provavelmente está entre os medicamentos mais conhecidos quando o assunto é dor e inflamação. Ele pertence à classe dos anti-inflamatórios não esteroides e é utilizado para diferentes tipos de dor e processos inflamatórios.

O que nem todo mundo sabe é que o ibuprofeno pode afetar os rins em determinadas circunstâncias.

Isso não significa que uma pessoa saudável terá necessariamente uma lesão renal ao tomar uma dose do medicamento. O risco depende de diversos fatores, incluindo a dose, a duração do tratamento, as condições de saúde da pessoa e outros medicamentos utilizados.

Um dos problemas aparece quando o ibuprofeno é utilizado repetidamente sem que a causa da dor seja investigada.

Outro cenário que merece atenção é aquele em que a pessoa está desidratada, como pode acontecer durante episódios de vômitos, diarreia, febre ou exposição prolongada ao calor.

Nessas situações, o organismo já pode estar enfrentando uma redução do volume de líquidos. A ação dos AINEs sobre os mecanismos que ajudam a preservar o fluxo sanguíneo renal pode aumentar a vulnerabilidade dos rins.

A National Kidney Foundation inclui o ibuprofeno entre os AINEs que podem contribuir para o risco de lesão renal aguda, especialmente quando existem outros fatores associados.

O problema não é apenas o medicamento

Um erro bastante comum é pensar:

“Se é fácil de encontrar, posso tomar sempre que sentir dor.”

Não é assim que a segurança de um medicamento funciona.

O fato de um medicamento ser facilmente encontrado em farmácias não significa que ele seja adequado para qualquer pessoa ou situação.

2. Diclofenaco

O diclofenaco também pertence ao grupo dos AINEs e é utilizado com frequência para dores e processos inflamatórios.

Assim como outros medicamentos da mesma classe, pode interferir nos mecanismos responsáveis pela manutenção da circulação sanguínea nos rins.

Esse risco merece atenção principalmente quando o medicamento é utilizado sem acompanhamento, em doses maiores do que as recomendadas ou durante períodos prolongados.

O diclofenaco também aparece entre os AINEs relacionados ao aumento do risco de lesão renal aguda quando combinado com determinadas condições ou medicamentos.

Um ponto importante é que muitas pessoas não percebem que estão utilizando medicamentos da mesma classe.

Por exemplo, alguém pode tomar um anti-inflamatório para uma dor nas costas e, posteriormente, utilizar outro medicamento semelhante porque a dor não passou.

Tomar dois anti-inflamatórios diferentes não significa necessariamente obter o dobro do benefício. Pode significar apenas aumentar a exposição do organismo aos efeitos adversos.

Por isso, combinar medicamentos por conta própria é uma prática que merece ser evitada.

3. Naproxeno

O naproxeno é outro AINE bastante conhecido e utilizado para dores e inflamações.

Assim como acontece com ibuprofeno e diclofenaco, seu efeito sobre as prostaglandinas pode interferir na capacidade dos rins de manter o fluxo sanguíneo adequado em determinadas situações.

A preocupação aumenta quando o medicamento é utilizado por pessoas que já possuem algum comprometimento da função renal ou apresentam fatores que aumentam a vulnerabilidade dos rins.

A desidratação é um desses fatores.

Imagine, por exemplo, uma pessoa que está com uma gastroenterite, perdeu bastante líquido por vômitos ou diarreia e decide tomar um anti-inflamatório para aliviar uma dor.

Nesse cenário, não estamos falando simplesmente do efeito isolado do medicamento. Existe uma combinação de fatores que pode tornar os rins mais vulneráveis.

O naproxeno é citado pela National Kidney Foundation entre os AINEs que podem aumentar o risco de lesão renal aguda, principalmente quando associado a outros fatores de risco.

4. Cetoprofeno

O cetoprofeno também pertence à classe dos anti-inflamatórios não esteroides e é utilizado para diferentes condições dolorosas e inflamatórias.

Assim como os demais medicamentos da classe, seu uso exige atenção em pessoas que apresentam maior risco de alterações renais.

O problema da automedicação é que, muitas vezes, a pessoa olha apenas para o sintoma.

“Estou com dor, então preciso de um anti-inflamatório.”

Mas o profissional de saúde precisa considerar uma série de outras informações: idade, histórico de doenças, hidratação, medicamentos utilizados, duração dos sintomas e função renal, entre outros aspectos.

É justamente essa avaliação que a automedicação deixa de fazer.

Além disso, uma dor que persiste por vários dias merece avaliação para que sua causa seja identificada. Continuar recorrendo ao anti-inflamatório pode apenas controlar temporariamente o sintoma, sem tratar o que está provocando a dor.

5. Meloxicam

O meloxicam é mais um medicamento pertencente ao grupo dos AINEs.

Assim como os outros medicamentos apresentados neste artigo, ele pode apresentar efeitos sobre os rins, especialmente em pessoas suscetíveis ou quando utilizado em determinadas condições clínicas.

A preocupação não deve ser interpretada como uma recomendação para que ninguém utilize esses medicamentos.

Anti-inflamatórios têm indicações importantes e podem ser medicamentos úteis quando utilizados corretamente.

O alerta é contra o uso sem avaliação adequada, principalmente quando a pessoa começa a repetir doses, prolongar o tratamento ou combinar medicamentos por conta própria.

A literatura médica reconhece os AINEs como uma causa importante de lesão renal aguda, embora a relação entre o uso crônico de AINEs isoladamente e a doença renal crônica seja mais complexa e tenha evidências menos consistentes.

Por isso, é importante diferenciar o risco de lesão renal aguda do conceito de “destruir os rins” com qualquer uso do medicamento.

Medicamentos nefrotóxicos.
Medicamentos nefrotóxicos. Imagem: Canva PRO

Por que os anti-inflamatórios podem afetar os rins?

Para entender o alerta, é preciso conhecer uma função importante das prostaglandinas.

Os rins precisam receber um fluxo sanguíneo adequado para conseguir desempenhar suas funções. Em determinadas situações, as prostaglandinas ajudam a preservar a dilatação dos vasos sanguíneos renais.

Os AINEs bloqueiam enzimas chamadas COX, que participam da produção dessas substâncias.

Quando a pessoa está em uma situação de maior vulnerabilidade, essa interferência pode contribuir para a redução do fluxo sanguíneo renal e, em alguns casos, para uma lesão renal aguda.

É por isso que o mesmo medicamento pode apresentar riscos muito diferentes dependendo da pessoa e da situação em que é utilizado.

O risco pode aumentar quando existe desidratação

Esse é um dos pontos que mais merecem atenção.

Uma pessoa que está desidratada já pode apresentar alterações na circulação e na quantidade de sangue que chega aos rins.

Se, nesse contexto, ela utiliza um AINE, a combinação pode aumentar o risco de comprometimento da função renal.

Vômitos, diarreia, febre, baixa ingestão de líquidos e exposição intensa ao calor são algumas situações nas quais é importante ter atenção especial à hidratação.

Isso não significa que toda pessoa desidratada terá uma lesão renal ao tomar um anti-inflamatório. Significa que a presença simultânea de fatores de risco muda a avaliação de segurança do medicamento.

E existe uma combinação de medicamentos que merece atenção especial

Existe uma combinação de medicamentos que merece atenção especial e que, na literatura, é conhecida como triple whammy”, ou “tripla combinação”.

Ela envolve três grupos:

  • um AINE;
  • um medicamento que atua no sistema renina-angiotensina, como um inibidor da ECA ou um bloqueador do receptor de angiotensina;
  • um diurético.

Essa combinação pode aumentar o risco de lesão renal aguda, especialmente em determinadas circunstâncias. A desidratação pode tornar o cenário ainda mais preocupante.

É justamente por isso que uma pessoa não deve avaliar a segurança de um anti-inflamatório olhando somente para o nome que está escrito na caixa.

Os outros medicamentos que ela utiliza também fazem parte dessa avaliação.

Leia também: Os rins podem adoecer em silêncio: 5 sinais que merecem atenção

Quem precisa ter ainda mais cuidado?

Algumas condições e situações podem aumentar a vulnerabilidade aos efeitos renais dos AINEs.

Entre elas estão:

  • pessoas que já possuem doença renal;
  • idosos;
  • pessoas que apresentam desidratação;
  • pessoas com diabetes;
  • pessoas com hipertensão;
  • pessoas com insuficiência cardíaca;
  • quem utiliza diuréticos;
  • quem utiliza medicamentos que atuam sobre o sistema renina-angiotensina;
  • pessoas que fazem uso frequente de anti-inflamatórios;
  • quem costuma combinar diferentes medicamentos para tratar a mesma dor.

Isso não significa que essas pessoas jamais possam utilizar determinados medicamentos.

Significa que a escolha do medicamento, a dose e a duração do tratamento precisam ser avaliadas com mais cuidado.

“Mas eu sempre tomei e nunca tive problema”

Esse é um argumento bastante comum.

E é justamente aí que mora um dos riscos da automedicação.

O fato de uma pessoa ter utilizado um medicamento anteriormente sem apresentar um problema aparente não garante que ele seja seguro em todas as situações futuras.

As condições do organismo podem mudar.

A pessoa pode estar mais velha, estar utilizando outro medicamento, apresentar uma nova doença ou simplesmente estar desidratada naquele momento.

Além disso, alterações na função renal podem não provocar sintomas perceptíveis no início.

Por isso, não sentir nada diferente depois de tomar um medicamento não significa necessariamente que ele seja adequado para uso repetido sem acompanhamento.

O maior problema é transformar um medicamento em hábito

Tomar um medicamento eventualmente, quando existe uma indicação apropriada, é muito diferente de utilizá-lo repetidamente para evitar procurar a causa de um sintoma.

A dor que sempre volta merece investigação.

A dor de cabeça que aparece várias vezes por semana merece atenção.

A dor muscular persistente também.

E aquela dor que exige cada vez mais medicamentos para ser controlada não deveria ser tratada simplesmente aumentando a frequência das doses.

O medicamento pode aliviar o sintoma, mas não necessariamente resolver a causa.

Leitura Recomendada: É dor nas costas ou algo nos rins? Os sinais que ajudam a descobrir

Não é preciso ter medo dos medicamentos

Um alerta contra a automedicação não deve se transformar em medo de medicamentos.

Medicamentos são ferramentas importantes para o tratamento de diversas doenças e sintomas. O problema está no uso inadequado.

Como farmacêutica, considero que uma das informações mais importantes que podemos transmitir é esta: o medicamento que foi adequado para uma pessoa pode não ser adequado para outra.

Até mesmo um remédio conhecido e utilizado há anos precisa ser considerado dentro do contexto de cada paciente.

Por isso, antes de repetir aquele medicamento que está guardado no armário, vale perguntar:

Eu realmente sei por que estou tomando este medicamento?

Sei qual é a dose adequada para mim?

Estou utilizando outros medicamentos que podem interagir com ele?

Estou desidratado ou passando por alguma doença neste momento?

A dor ou o sintoma está persistindo e precisa ser investigado?

Se alguma dessas perguntas não tiver uma resposta clara, conversar com um farmacêutico, médico ou outro profissional habilitado pode evitar um problema desnecessário.

E quando procurar atendimento?

Uma pessoa que apresenta redução importante da quantidade de urina, inchaço, falta de ar, fraqueza intensa, confusão, vômitos persistentes ou outros sintomas importantes deve procurar avaliação médica, especialmente se esses sinais surgirem durante uma doença ou após o uso de medicamentos.

Esses sinais não significam necessariamente que exista uma lesão nos rins, pois podem ter diversas causas. Mas, diante de sintomas importantes, não é seguro simplesmente continuar tomando medicamentos por conta própria.

A mensagem que eu, como farmacêutica, deixo

Não existe medicamento completamente livre de riscos.

Existem medicamentos que, quando utilizados corretamente e para a indicação adequada, apresentam benefícios que superam seus riscos.

O problema acontece quando transformamos a automedicação em rotina.

Ibuprofeno, diclofenaco, naproxeno, cetoprofeno e meloxicam são medicamentos conhecidos e úteis, mas pertencem a uma classe que merece atenção quando o assunto é função renal.

O risco não significa que qualquer comprimido vá causar uma doença nos rins. A evidência mostra que o contexto importa: dose, duração, características do paciente, hidratação e outros medicamentos podem modificar significativamente esse risco.

Por isso, antes de tomar mais um comprimido simplesmente porque ele está disponível no armário de casa, vale fazer uma pausa.

Às vezes, o cuidado mais importante não é escolher qual medicamento tomar, mas saber quando não é seguro tomar um medicamento por conta própria.

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Farm. Elizandra Civalsci Costa

Editora-chefe do SaúdeLAB. Farmacêutica (CRF MT nº 3490), formada pela Universidade Estadual de Londrina, com especialização em Farmácia Hospitalar e Oncologia pelo Hospital Erasto Gaertner.

Atua na supervisão editorial e na produção de conteúdos jornalísticos e informativos sobre saúde, ciência e bem-estar, seguindo critérios de apuração, revisão e responsabilidade editorial.

Possui formação em revisão de conteúdo para web pela Rock Content University e capacitação em fact-checking pelo Poynter Institute.

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