Desde que a Rússia iniciou a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, milhões de pessoas passaram a conviver com uma realidade que foge completamente do cotidiano.
Imagine viver sem saber quando o próximo ataque pode acontecer. Dormir com o barulho das explosões, deixar a própria casa às pressas, ver a destruição do lugar onde vive ou perder alguém próximo em meio à guerra.
Para quem passa por situações assim, o medo pode não desaparecer quando o perigo termina. Em algumas pessoas, o trauma pode continuar afetando o sono, os pensamentos, as emoções e até os relacionamentos.
É esse impacto menos visível da invasão russa que uma nova pesquisa ajuda a dimensionar.
Entre 2.504 adultos ouvidos na Ucrânia, quase um em cada três apresentou critérios compatíveis com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou TEPT complexo.
O que é o transtorno de estresse pós-traumático e quais são os sintomas?
O transtorno de estresse pós-traumático é uma condição de saúde mental que pode surgir depois que uma pessoa vivencia ou presencia uma situação traumática.
O problema não está simplesmente em lembrar algo difícil. Depois de um trauma, é esperado que exista sofrimento. No TEPT, porém, os sintomas podem persistir e interferir na rotina, no sono, nos relacionamentos e em outras áreas da vida.
Entre as manifestações possíveis estão lembranças ou imagens invasivas do acontecimento, pesadelos, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações do sono e tentativa de evitar situações que façam a pessoa recordar o trauma.
Existe ainda o TEPT complexo, relacionado especialmente à exposição prolongada ou repetida a situações traumáticas.
Além dos sintomas do TEPT, ele pode envolver dificuldades persistentes para controlar as emoções, uma percepção negativa de si mesmo e problemas nos relacionamentos.
A guerra atingiu a vida cotidiana de diferentes formas
O levantamento mostra que os participantes não estavam expostos apenas ao risco de novos ataques. Muitos haviam passado por situações que mudaram profundamente sua rotina e seus vínculos.
Entre os relatos apareceram:
- explosões, incêndios e bombardeios, além da destruição de casas e comunidades;
- ferimentos e danos provocados pela guerra, inclusive em locais distantes da linha de frente;
- deslocamento, com pessoas obrigadas a deixar suas casas ou cidades;
- desaparecimento ou morte de familiares e outras pessoas próximas;
- preocupação constante com a segurança de pessoas queridas.
Esse conjunto de experiências ajuda a entender a dimensão do impacto psicológico encontrado na população.
Os pesquisadores fazem, porém, uma ressalva importante. Como os participantes foram avaliados apenas uma vez, durante uma guerra que ainda está em andamento, o estudo mostra um retrato daquele momento. Não é possível saber, a partir desses dados, como os sintomas vão evoluir ao longo do tempo.
Publicado no European Journal of Psychotraumatology, o estudo ajuda a dimensionar uma consequência da invasão russa que não aparece nos escombros nem nas imagens dos ataques.
É o sofrimento psicológico deixado pela guerra entre civis obrigados a viver com medo, perdas, deslocamentos e destruição.




