Melatonina realmente ajuda a dormir? O que ninguém te explica sobre o hormônio do sono

Você já tomou melatonina esperando apagar na cama… e acabou virando de um lado para o outro, olhando o teto no escuro? Ou então até dormiu, mas acordou com aquela sensação estranha de “cabeça pesada” no dia seguinte?

Se isso soa familiar, você não está sozinho. A melatonina virou um dos suplementos mais usados quando o sono sai dos trilhos — mas pouca gente entende, de fato, o que esse hormônio faz no corpo, quando ele costuma ajudar e em quais situações pode não ser a melhor escolha.

Hoje, você vai entender o papel real da melatonina no organismo, o que a ciência já comprova, onde ainda existem dúvidas, como usar com mais segurança e quando é hora de olhar além do suplemento.

O que é a melatonina e por que ela não é um “remédio para dormir”

A melatonina é um hormônio produzido principalmente pela glândula pineal, no cérebro. Sua função central não é “apagar” você à noite, mas organizar o relógio biológico — o chamado ritmo circadiano, que regula quando o corpo entende que é hora de ficar alerta e quando é hora de desacelerar.

Em condições naturais, a produção começa a aumentar no início da noite, quando a luz do ambiente diminui. Esse sinal hormonal avisa ao organismo que o período de repouso está se aproximando. Pela manhã, com a exposição à luz, os níveis caem novamente.

É por isso que a melatonina funciona mais como um marcador de tempo interno do que como um sedativo. Ela não “força” o sono, mas ajuda o corpo a entrar no ritmo certo para que o sono aconteça.

Um ponto importante: luz artificial, especialmente a luz azul de celulares, televisores e computadores, pode atrasar ou reduzir essa liberação natural. Em muitas pessoas, o problema do sono começa exatamente aí — antes mesmo de qualquer falta real de melatonina.

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Como a melatonina atua no corpo além do sono

Embora seja mais conhecida pelo papel no descanso noturno, a melatonina participa de outros processos importantes no organismo.

Ela tem ação antioxidante, ajudando a neutralizar radicais livres, e interage com o sistema imunológico, influenciando a liberação de substâncias envolvidas na resposta inflamatória. Por esse motivo, vem sendo estudada em diferentes contextos de saúde.

Mas aqui entra um ponto essencial: nem tudo que aparece em estudos de laboratório ou em pesquisas iniciais se traduz em benefício clínico comprovado para a população em geral. Por isso, é importante separar o que já tem boa evidência do que ainda está em fase de investigação.

O que a ciência realmente comprova hoje sobre a melatonina

As diretrizes médicas e revisões científicas costumam apontar benefícios mais consistentes da melatonina em situações como:

  • Jet lag, após mudanças rápidas de fuso horário
  • Distúrbios do ritmo circadiano, quando a pessoa dorme e acorda muito fora do horário social
  • Insônia em idosos, especialmente quando há queda natural da produção do hormônio com a idade
  • Pessoas com deficiência visual, que não recebem o estímulo da luz para regular o relógio biológico

Nesses casos, a melatonina pode ajudar o corpo a se realinhar com um ciclo de sono mais previsível.

Onde a evidência ainda é limitada

Alguns estudos sugerem possíveis efeitos em:

No entanto, os resultados ainda são inconsistentes. Isso significa que, para essas condições, a melatonina não é considerada tratamento principal, e seu uso deve ser visto como algo complementar, quando indicado por um profissional de saúde.

Onde os estudos ainda são preliminares

Áreas como imunidade, envelhecimento e prevenção de doenças crônicas ainda estão no campo experimental. A maior parte das pesquisas vem de modelos animais ou estudos observacionais, sem comprovação clínica sólida para recomendações de rotina.

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Melatonina natural x melatonina em suplemento: qual a diferença real

Quando o corpo produz melatonina naturalmente, o hormônio sobe de forma gradual ao longo da noite e cai aos poucos pela manhã. Esse ritmo é suave e sincronizado com outros sistemas do organismo.

Ao usar um suplemento, você cria um pico artificial no nível de melatonina no sangue. Em algumas pessoas, isso ajuda a sinalizar o início do sono. Em outras, pode causar efeitos como sonolência prolongada ou sensação de “ressaca” no dia seguinte.

Liberação imediata vs. liberação prolongada

Existem dois tipos principais de suplemento:

  • Liberação imediata: costuma ser mais usada por quem tem dificuldade para pegar no sono
  • Liberação prolongada: tende a ser indicada para quem acorda várias vezes durante a noite

Escolher o tipo errado é um dos motivos mais comuns de frustração com a melatonina.

Quando a melatonina costuma ser mais útil

O suplemento geralmente é buscado por pessoas que:

  • Têm dificuldade para ajustar o horário de dormir e acordar
  • Trabalham em turnos alternados
  • Viajam com frequência entre fusos horários
  • Percebem queda do sono com o envelhecimento

Mesmo nesses casos, especialistas em sono reforçam que a melatonina funciona melhor quando vem acompanhada de hábitos que favorecem o ritmo biológico, como rotina regular, exposição à luz natural durante o dia e redução de telas à noite.

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Uso contínuo: o que pode acontecer após semanas ou meses

Esse é um dos pontos menos falados — e mais importantes.

Em algumas pessoas, o uso prolongado pode levar a uma redução da resposta do organismo ao suplemento, o que faz com que a dose pareça “parar de funcionar” com o tempo. Há também relatos de efeito rebote: dificuldade maior para dormir nos primeiros dias após a interrupção.

Por isso, muitos profissionais recomendam que a melatonina não seja vista como uma solução permanente, mas como um apoio temporário enquanto a rotina de sono é ajustada.

Sinais de que algo pode não estar indo bem incluem:

  • Sonolência excessiva durante o dia
  • Alterações de humor
  • Dor de cabeça frequente
  • Sensação de confusão mental ao acordar

Segurança e interações medicamentosas que merecem atenção

Embora seja vendida como suplemento, a melatonina interage com medicamentos e sistemas hormonais. Isso não deve ser subestimado.

Antidepressivos e estabilizadores de humor

Pode haver alteração no efeito sedativo ou no padrão de sono, especialmente em pessoas sensíveis a mudanças nos níveis de serotonina e dopamina.

Remédios para pressão e coração

A melatonina pode influenciar a pressão arterial em algumas pessoas, o que exige cautela em quem já faz tratamento cardiovascular.

Medicamentos para diabetes

Há indícios de que o hormônio pode interferir na regulação da glicose em determinados perfis de pacientes.

Anticoncepcionais e hormônios

O uso de hormônios sintéticos pode alterar a forma como o corpo metaboliza a melatonina, modificando sua duração e intensidade no organismo.

Por isso, conversar com médico ou farmacêutico antes de iniciar o uso não é exagero — é parte do cuidado responsável.

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Melatonina em crianças e adolescentes: um tema delicado

O uso nessa faixa etária vem crescendo, especialmente em casos de atraso do sono, transtornos do neurodesenvolvimento e rotinas muito desorganizadas.

No entanto, especialistas alertam que a melatonina também participa da regulação de outros eixos hormonais, incluindo os ligados ao desenvolvimento puberal. Ainda não há consenso sobre os efeitos do uso prolongado nesse período da vida.

Por isso, a recomendação geral é que a suplementação só seja considerada quando mudanças comportamentais e ambientais não foram suficientes — e sempre com acompanhamento profissional.

Como escolher um suplemento de melatonina com mais segurança

Nem todos os produtos disponíveis no mercado têm o mesmo padrão de qualidade. Alguns pontos que merecem atenção:

  • Verificar se o produto segue as normas da Anvisa
  • Desconfiar de doses muito altas no rótulo
  • Evitar fórmulas cheias de corantes, aromatizantes e açúcares
  • Dar preferência a marcas que informam testes de pureza e controle de qualidade

Em especial, gomas mastigáveis podem parecer inofensivas, mas muitas vezes vêm associadas a altas doses e aditivos que não contribuem para a saúde do sono.

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Quando a dificuldade para dormir pode ser sinal de outra coisa

Se a melatonina não faz efeito, vale levantar outras hipóteses, como:

  • Apneia do sono
  • Ansiedade crônica
  • Depressão
  • Uso excessivo de cafeína ou estimulantes
  • Síndrome do atraso da fase do sono

Nesses casos, tratar apenas com suplemento pode mascarar um problema maior que merece avaliação específica.

Fontes naturais e hábitos que ajudam o corpo a produzir melatonina

Alguns alimentos contêm pequenas quantidades do hormônio ou de seus precursores, como cerejas, nozes, uvas, tomates e arroz.

Mais importante do que isso, porém, são os hábitos:

  • Exposição à luz natural pela manhã
  • Ambiente escuro e silencioso à noite
  • Horário regular para dormir e acordar
  • Redução do uso de telas antes de deitar

Essas estratégias ajudam o corpo a fazer aquilo que a melatonina faz de melhor: manter o relógio biológico no ritmo certo.

Por fim, a melatonina pode ser uma aliada em situações específicas, especialmente quando o problema está no desalinhamento do ritmo biológico. Mas ela não é uma solução universal para todo tipo de insônia.

Entender quando usar, por quanto tempo e em que contexto faz toda a diferença entre um suplemento que ajuda e um hábito que apenas adia a busca pela verdadeira causa do problema.

Se o sono virou uma luta constante, a melhor resposta nem sempre está no frasco — muitas vezes começa na rotina, no ambiente e em uma boa conversa com um profissional de saúde.

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Farm. Elizandra Civalsci Costa

Editora-chefe do SaúdeLAB. Farmacêutica (CRF MT nº 3490), formada pela Universidade Estadual de Londrina, com especialização em Farmácia Hospitalar e Oncologia pelo Hospital Erasto Gaertner.

Atua na supervisão editorial e na produção de conteúdos jornalísticos e informativos sobre saúde, ciência e bem-estar, seguindo critérios de apuração, revisão e responsabilidade editorial.

Possui formação em revisão de conteúdo para web pela Rock Content University e capacitação em fact-checking pelo Poynter Institute.

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