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Agosto Dourado: “toda mulher sabe amamentar” é uma frase que ainda pesa sobre muitas mães
O Agosto Dourado é um convite para falarmos sobre um dos gestos mais importantes para a saúde do bebê. Mas, acima de tudo, deveria ser um momento para lembrarmos de quem torna esse processo possível: a mãe.
Durante muitos anos, a amamentação foi apresentada como algo instintivo, quase automático.
A ideia de que “toda mulher sabe amamentar” criou uma expectativa que, na prática, está longe da realidade.
Quando surgem dificuldades — muito mais frequentes do que imaginamos —, muitas mães acreditam que estão falhando.
Não estão.
A ciência mostra justamente o contrário: o sucesso da amamentação depende menos da força de vontade da mulher e muito mais do apoio que ela recebe.
A mais recente série sobre aleitamento materno, publicada pela revista científica The Lancet em parceria com pesquisadores da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do UNICEF, afirma que a amamentação é uma responsabilidade coletiva.
O estudo mostra que fatores como orientação profissional, licença-maternidade adequada, ambientes de trabalho favoráveis, apoio familiar e políticas públicas têm influência direta sobre a duração do aleitamento e sobre a experiência materna.
Esse talvez seja o principal recado dessa discussão.
Amamentar também se aprende
Ainda hoje, muitas mulheres recebem alta da maternidade acreditando que o bebê mamará corretamente desde a primeira tentativa.
Quando aparecem dor intensa, fissuras e dificuldade de pega, ou a sensação de que o leite “não sustenta”, surgem também a frustração e a culpa.
Entretanto, a própria The Lancet chama atenção para um problema bastante comum: comportamentos absolutamente normais dos recém-nascidos — como querer mamar diversas vezes ao dia, acordar durante a noite ou chorar com frequência — costumam ser interpretados como sinais de leite insuficiente.
Essa percepção, muitas vezes reforçada por informações equivocadas, leva inúmeras famílias ao desmame precoce, quando, na verdade, a maioria dessas situações poderia ser resolvida com orientação adequada.
Isso está longe de significar que o processo seja fácil.
Amamentar exige aprendizado. Mãe e bebê aprendem juntos.
A pega correta, o posicionamento, a livre demanda e o acompanhamento nas primeiras semanas fazem enorme diferença para prevenir dor, lesões mamárias e dificuldades futuras.
Por isso, a assistência profissional não deve terminar na maternidade. O acompanhamento no puerpério é tão importante quanto o pré-natal.
Saúde mental também faz parte da amamentação
Outro aspecto frequentemente negligenciado é a saúde mental.
O puerpério representa uma das maiores transformações físicas, hormonais e emocionais da vida da mulher.
Privação de sono, alterações hormonais, insegurança e adaptação à nova rotina podem tornar esse período extremamente desafiador.
Quando a amamentação passa a ser acompanhada de sofrimento intenso ou de sentimentos constantes de incapacidade, é preciso olhar para essa mulher com acolhimento, e não com julgamento.
A maternidade não pode ser medida pela quantidade de leite produzida.
Defender o aleitamento materno não significa romantizar esse processo nem ignorar que existem mulheres que enfrentam mastites, dor persistente, hipogalactia verdadeira, uso de medicamentos incompatíveis com a amamentação ou outras condições clínicas que exigem uma abordagem individualizada.
A própria OMS reforça que promover o aleitamento significa proteger, apoiar e oferecer condições para que a mulher consiga amamentar pelo tempo que desejar, e não responsabilizá-la isoladamente pelo sucesso ou pelo fracasso dessa experiência.
Ninguém amamenta sozinho
Também precisamos discutir a rede de apoio.
O pai, a parceira, os avós, os empregadores, os profissionais de saúde e toda a sociedade fazem parte desse processo.
Dividir tarefas domésticas, permitir que a mãe descanse, garantir licença-maternidade adequada, oferecer salas de apoio à amamentação no ambiente de trabalho e assegurar acesso a profissionais capacitados são medidas que aumentam significativamente as taxas de aleitamento materno.
A OMS destaca, inclusive, que intervenções educativas durante a gestação e após o parto estão associadas ao aumento da duração da amamentação.
É curioso perceber que vivemos uma contradição. Nunca tivemos tanta informação disponível, mas nunca houve tantas mulheres se sentindo culpadas por não corresponderem a um ideal de maternidade.
Precisamos mudar essa lógica.
Amamentar continua sendo o padrão-ouro para a alimentação do bebê, e os benefícios para mãe e filho são inquestionáveis.
A OMS recomenda o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida e sua manutenção, juntamente com a alimentação complementar, até dois anos ou mais, sempre que mãe e criança desejarem.
O leite materno reduz o risco de infecções, protege contra doenças respiratórias e gastrointestinais, favorece o desenvolvimento infantil e também diminui o risco materno de câncer de mama, câncer de ovário, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.
Mas nenhuma dessas evidências justifica transformar a amamentação em um instrumento de culpa.
O verdadeiro significado do Agosto Dourado não está apenas em incentivar o leite materno.
Está em construir uma sociedade que acolha mulheres no puerpério, respeite diferentes trajetórias e ofereça suporte para que cada mãe possa viver essa experiência com segurança, informação e dignidade.
Porque, quando cuidamos da mãe, aumentamos também as chances de cuidar melhor do bebê.
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