Psicóloga: amamentar não pode custar a saúde mental da mãe

Agosto é o mês dedicado à promoção do aleitamento materno. A amamentação precisa, sim, ser incentivada.

O leite materno oferece benefícios importantes para a saúde e o desenvolvimento do bebê, e a recomendação é que o aleitamento materno seja exclusivo nos primeiros seis meses de vida, sempre que isso for possível e seguro.

Mas grande parte das campanhas do Agosto Dourado fala diretamente com a mãe e reforça o que ela deve fazer.

Pouco se pergunta se hospitais, profissionais de saúde, empregadores e redes de apoio oferecem condições reais para que essa mulher consiga amamentar.

A maioria das mulheres deseja viver essa experiência. Muitas imaginam esse momento antes mesmo da gravidez e esperam que ele aconteça de forma natural.

Se surgem dificuldades, porém, a resposta costuma vir em forma de cobrança, como se faltassem vontade, amor ou esforço.

Na vida real, a continuidade da amamentação não depende apenas da mãe.

Ela também passa pela assistência no parto e no pós-parto, pelo apoio diante da dor, pelas condições de trabalho, pela saúde mental e pela participação da família.

Fatores que interferem na amamentação

A pega pode ser difícil. As mamas podem machucar ou apresentar fissuras. O leite pode demorar a descer.

O bebê pode precisar de internação. A mãe pode passar por uma cirurgia, sentir exaustão ou não receber orientação adequada.

Há também mulheres que precisam voltar ao trabalho antes de completar seis meses de pós-parto e não contam com um espaço apropriado para retirar e armazenar o leite.

Ansiedade, estresse e depressão também podem tornar esse processo mais difícil. Nada disso pode ser resumido à falta de esforço.

Antes de culpar uma mulher por não manter o aleitamento como desejava, é preciso conhecer sua história.

Ela teve assistência? A pega do bebê foi avaliada? A dor recebeu atenção?

Houve apoio em casa? O trabalho ofereceu condições para a continuidade?

Uma mulher pode desejar amamentar e, ainda assim, não encontrar a estrutura necessária.

O Agosto Dourado também precisa falar com profissionais

Profissionais e instituições influenciam o início e a continuidade do aleitamento. Por isso, o Agosto Dourado não deve orientar apenas as mães.

A via de parto pode interferir nesse processo. A cesariana salva vidas e é necessária em muitas situações.

O problema está nas cirurgias sem indicação clínica e antes do início do trabalho de parto. Nesses casos, mãe e bebê podem precisar de apoio específico para iniciar a amamentação.

A primeira hora após o nascimento também é importante. Na ausência de impedimento clínico, o contato entre mãe e bebê e o início da amamentação favorecem esse começo.

A permanência dos dois no mesmo quarto também ajuda a mãe a reconhecer os sinais de fome e oferecer o peito de acordo com a necessidade da criança.

Essas decisões dependem de protocolos, equipes preparadas e serviços que valorizem o contato desde o nascimento.

Não é justo dificultar o início da amamentação e, depois, cobrar da mulher um resultado que não depende apenas dela.

O incentivo ao aleitamento também exige revisão das práticas adotadas por quem presta assistência.

Pressão para amamentar também afeta a saúde mental

Frases como “você precisa insistir”, “toda mulher consegue” ou “é só ter força de vontade” podem aumentar o sofrimento.

O mesmo ocorre se alguém afirma que a mãe não tentou o suficiente ou que o bebê não criará vínculo com ela sem o peito.

A mulher, em geral, quer cuidar do filho e oferecer o que acredita ser melhor. Se não consegue amamentar, pode interpretar essa dificuldade como prova de que não é uma boa mãe.

Uma experiência dolorosa, cercada por pressão e frustração, pode aumentar culpa, ansiedade e sofrimento emocional.

Ao mesmo tempo, uma mulher com depressão pode encontrar mais dificuldade para lidar com uma rotina exigente de mamadas, retirada de leite e cuidados com o bebê.

Saúde física e saúde mental não podem ser tratadas como assuntos separados. Não adianta defender o leite materno e ignorar a condição emocional de quem amamenta.

Há mulheres que sentem dor intensa, choram nas mamadas ou passam a temer esse momento.

Nesses casos, insistir sem investigar a causa não é cuidado.

É preciso avaliar a pega, observar as condições clínicas da mãe e do bebê e encaminhar cada dificuldade ao profissional adequado.

Médicos, enfermeiros, consultores de amamentação e psicólogos perinatais exercem funções diferentes, mas podem atuar de forma integrada.

Se a equipe olha apenas para o peito e para o peso do bebê, sem perguntar como a mãe está, uma parte essencial do cuidado fica de fora.

A amamentação não deve virar uma penitência.

Em alguns casos, orientação e tratamento permitem a continuidade. Em outros, será necessário complementar ou substituir o leite materno.

Essa decisão precisa de acompanhamento, informação e respeito.

Não amamentar não significa amar menos

A amamentação pode favorecer a proximidade entre mãe e bebê, mas não é a única forma de construir vínculo.

Uma mãe também se aproxima do filho ao oferecer colo, dar banho, conversar, brincar, acalmar o choro e responder às necessidades dele.

O vínculo nasce da relação cotidiana, não apenas do peito.

Por isso, não amamentar não significa amar menos nem deixar a criança sem vínculo.

O método usado para alimentar um bebê não mede o amor que ele recebe.

A alimentação precisa ser segura e orientada por profissionais. A mãe, por sua vez, não deve atravessar essa experiência cercada por vergonha ou julgamento.

Como apoiar a mulher durante a amamentação

Falar de apoio é tão importante quanto explicar os benefícios do leite materno. Algumas medidas podem tornar esse processo menos solitário:

  • Oferecer orientação ainda durante o pré-natal e preparar as equipes para a primeira mamada;
  • Avaliar a pega, a dor, as fissuras e outras intercorrências;
  • Manter mãe e bebê próximos sempre que houver condições clínicas;
  • Dividir tarefas domésticas e respeitar o descanso da mulher;
  • Garantir condições para retirada e armazenamento do leite no retorno ao trabalho;
  • Observar sinais de ansiedade, depressão e sofrimento intenso e encaminhar para atendimento.

O pai, a família e a rede de apoio não amamentam, mas podem fazer muito para que a mulher tenha condições de amamentar.

Podem cuidar da casa, preparar uma refeição, assumir outras tarefas com o bebê, protegê-la de visitas excessivas e evitar palpites que aumentam a insegurança.

A amamentação não deveria ser uma missão solitária entregue à mulher depois do parto.

Ela depende de uma rede, de profissionais preparados e de condições sociais que permitam sua continuidade.

Não basta dizer que a mãe deve amamentar. É preciso perguntar o que hospitais, profissionais, famílias e empregadores fizeram para que ela tivesse condições reais.

O Agosto Dourado não pode ser apenas um mês de cobrança dirigida à mulher. Precisa ser também um mês de responsabilidade coletiva.

Promover a amamentação significa oferecer suporte, rever condutas e proteger a saúde mental materna.

A partir do momento em que a cobrança ocupa o lugar do apoio, o cuidado perde o sentido.

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Rafaela Schiavo.
Psic Rafaela Schiavo

Rafaela Schiavo é psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Dedica-se à saúde mental materna desde sua formação inicial, sendo autora de centenas de trabalhos científicos voltados à redução dos altos índices de sofrimento emocional durante a gestação e o puerpério.

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