O caso da ex-BBB Isabelle Nogueira e o que saber antes de congelar óvulos

A decisão da ex-BBB Isabelle Nogueira de iniciar um tratamento para congelar óvulos trouxe novamente para o debate público um assunto que diz respeito a muitas mulheres: até que ponto é possível planejar a maternidade sem deixar que o tempo biológico determine sozinho as possibilidades de uma futura gestação?

Ao compartilhar sua experiência, Isabelle contou que descobriu ter uma reserva ovariana baixa e que o tratamento estava sendo mais difícil do que imaginava.

O relato é importante justamente porque ajuda a mostrar que congelar óvulos não é um procedimento simples de “guardar a juventude” nem uma garantia de gravidez no futuro.

O que o congelamento de óvulos realmente preserva

A criopreservação de óvulos é uma ferramenta de preservação da fertilidade. Por meio da estimulação ovariana, os óvulos são coletados e os que apresentam maturidade adequada podem ser vitrificados e armazenados para uma eventual utilização futura.

Quando a mulher decide tentar engravidar, esses óvulos podem ser descongelados e utilizados em um tratamento de fertilização in vitro.

Mas existe uma informação fundamental nessa conversa.

Não congelamos apenas óvulos; congelamos também uma determinada condição biológica daquele momento da vida.

A idade em que os óvulos são coletados importa porque, com o passar dos anos, não ocorre apenas uma redução na quantidade disponível.

A qualidade dos oócitos (nome técnico da célula reprodutiva feminina antes da fecundação, popularmente chamada de óvulo) também tende a diminuir, aumentando a probabilidade de alterações cromossômicas e reduzindo as chances reprodutivas.

É aqui que a genética entra de maneira especialmente importante.

Alterações cromossômicas são mudanças no número ou na organização dos cromossomos que podem comprometer o desenvolvimento embrionário.

A idade materna é um dos principais fatores associados ao aumento do risco de aneuploidias, alterações no número de cromossomos dos embriões.

Por isso, um óvulo congelado aos 32 anos não é biologicamente equivalente a um óvulo congelado aos 40.

Mesmo que a mulher utilize esse material anos depois, o que está sendo preservado é, em grande medida, a condição daquele óvulo no momento em que foi congelado.

Idade ideal para congelar óvulos: existe?

Isso não significa, porém, que exista uma idade mágica para todas as mulheres congelarem seus óvulos.

As recomendações e os estudos disponíveis mostram que os resultados tendem a ser melhores quando a criopreservação acontece em idades mais jovens, mas a decisão precisa ser individualizada.

A Sociedade Brasileira de Reprodução Humana ressalta que ainda não há dados suficientes para estabelecer uma idade única que possa ser considerada ideal para o congelamento eletivo de óvulos.

Reserva ovariana e AMH: o que os exames não dizem

Outro ponto que merece atenção é a chamada reserva ovariana.

Exames como o hormônio antimülleriano (AMH) e a contagem de folículos antrais podem ajudar o especialista em reprodução humana a estimar como os ovários podem responder à estimulação.

Entretanto, ter uma reserva ovariana maior não significa necessariamente ter óvulos geneticamente melhores, assim como uma reserva baixa não permite, sozinha, afirmar que uma mulher não poderá engravidar.

Esse é um dos pontos em que informação de qualidade faz diferença.

A própria evidência disponível indica que os testes de reserva ovariana conseguem ajudar a prever principalmente a quantidade de oócitos que pode ser obtida em um ciclo, mas não determinam isoladamente a chance de nascimento vivo.

Congelar óvulos não é um seguro contra a infertilidade

Também é preciso abandonar a ideia de que congelar óvulos representa uma espécie de seguro contra a infertilidade.

Não é. É uma estratégia que pode ampliar possibilidades futuras, mas não elimina os limites da reprodução humana.

Fatores como o número de óvulos obtidos, a idade no momento da coleta e a sobrevivência dos óvulos após o descongelamento influenciam o resultado.

A fertilização, o desenvolvimento dos embriões e as condições maternas no momento da gestação também entram nessa equação.

E existe ainda uma questão que considero essencial: o congelamento de óvulos não deve ser vendido como obrigação para mulheres que ainda não decidiram se querem ser mães.

A tecnologia pode oferecer uma alternativa para quem deseja preservar uma possibilidade, seja por razões pessoais, profissionais ou médicas. Mas ela não deve transformar a maternidade em mais uma meta de produtividade feminina.

O relato de Isabelle pode servir justamente para uma conversa mais madura. Não sobre medo de envelhecer, nem sobre uma corrida contra o relógio, mas sobre planejamento reprodutivo e autonomia.

A melhor decisão não é necessariamente congelar óvulos. É conhecer as próprias possibilidades antes que uma decisão precise ser tomada às pressas.

A genética nos ensina que existem fatores que podemos compreender, avaliar e, em alguns casos, antecipar. Mas também nos lembra de algo igualmente importante: informação não serve para determinar o futuro. Serve para ampliar a capacidade de escolher.

Leitura Recomendada: 10 doenças raras no mundo: o caso Lito Sousa e o desafio de diagnosticar o que quase ninguém vê

Compartilhe este conteúdo
Paulo Zattar Ribeiro.
Dr. Paulo Zattar Ribeiro

Paulo Zattar Ribeiro é médico geneticista, fellow em Oncogenética e doutorando em Reprodução Humana pela USP. Fundador do PodRaros, atua com foco em genética clínica, decisões baseadas em evidência e equidade em saúde. CRM-SP 229854 / RQE 139920

VIRE A CHAVE PARA EMAGRECER

INSCRIÇÕES GRATUITAS E VAGAS LIMITADAS