Book Appointment Now

10 doenças raras no mundo: o caso Lito Sousa e o desafio de diagnosticar o que quase ninguém vê
Na sexta-feira (21), Mila, esposa do influenciador Lito Sousa, dono do canal Aviões e Músicas, revelou que ele, aos 59 anos, foi diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob. A condição é rara e faz parte do grupo das doenças causadas por príons, proteínas que podem assumir uma forma anormal e provocar danos progressivos no sistema nervoso.
O caso chama atenção para um universo de doenças raras que, de tão raras, podem nunca ser encontradas pessoalmente por um médico ao longo de toda a carreira.
Entre elas está a Insônia Familiar Fatal, uma doença hereditária também relacionada aos príons.
Mas há condições ainda mais surpreendentes. Algumas fazem o organismo produzir osso onde deveria existir músculo; outras aceleram o envelhecimento, impedem a percepção adequada da dor ou dificultam a circulação das próprias células de defesa.
Para entender melhor esse universo, o SaúdeLab ouviu o médico geneticista Paulo Zattar, que selecionou 10 condições especialmente raras.
A seleção não representa um ranking absoluto de raridade, mas reúne doenças com características genéticas, clínicas ou fisiológicas particularmente surpreendentes, que seguem sendo um desafio para o diagnóstico médico.
1. Fibrodisplasia Ossificante Progressiva
Na Fibrodisplasia Ossificante Progressiva (FOP), o corpo começa a formar osso onde deveria existir músculo, tendão ou ligamento.
A doença atinge cerca de 1 pessoa a cada 2 milhões. Geralmente, está ligada a uma alteração no gene ACVR1. Pequenos traumas, quedas, injeções ou cirurgias podem desencadear inflamação e formação de novo osso.
Com o tempo, isso pode deixar os movimentos cada vez mais limitados e dificultar até a abertura da boca ou a expansão do tórax.
“É como se o corpo começasse, aos poucos, a construir um ‘segundo esqueleto’ fora do esqueleto original”, explica o geneticista Paulo Zattar.
Não há cura. O controle envolve evitar traumas, tratar as crises e, em alguns países, utilizar terapias específicas.
2. Progeria
A progeria, ou síndrome de Hutchinson-Gilford, provoca um envelhecimento extremamente acelerado ainda na infância.
É uma doença muito rara, com menos de 1 caso por milhão. Geralmente está ligada a uma alteração no gene LMNA, que leva à produção de uma proteína anormal chamada progerina.
As crianças podem apresentar baixo crescimento, perda de gordura e cabelos, alterações na pele e envelhecimento precoce dos vasos sanguíneos.
Apesar da aparência envelhecida, o desenvolvimento intelectual costuma ser preservado.
Existe tratamento capaz de melhorar alguns resultados e aumentar a sobrevida, mas ainda não há cura.
3. Insônia Familiar Fatal
O nome pode fazer parecer que o problema é simplesmente não conseguir dormir. Não é.
A Insônia Familiar Fatal é uma doença hereditária relacionada ao gene PRNP e ao grupo das doenças causadas por príons. É extremamente rara, com menos de 1 caso por milhão.
Proteínas anormais provocam a degeneração de áreas do cérebro, especialmente o tálamo, que participa do controle do sono e de outras funções do organismo.
Além da insônia progressiva, podem surgir alterações da pressão e dos batimentos cardíacos, perda de peso, problemas motores e comprometimento neurológico.
“O nome chama atenção pela insônia, mas, na realidade, é uma doença neurodegenerativa progressiva muito mais ampla”, afirma Zattar.
Não há tratamento capaz de impedir sua progressão. O cuidado é principalmente de suporte.
4. Xeroderma Pigmentoso
No xeroderma pigmentoso, o organismo tem defeitos nos mecanismos que normalmente consertam os danos provocados pela radiação ultravioleta no DNA.
Por isso, uma quantidade de sol tolerada pela maioria das pessoas pode causar danos muito maiores.
Queimaduras solares intensas, manchas precoces e alterações nos olhos estão entre os sinais. O risco de câncer de pele também é muito elevado e pode aparecer ainda na infância ou juventude.
Em algumas situações, a rotina precisa ser organizada para evitar praticamente toda exposição à radiação ultravioleta.
Não há cura, mas a proteção rigorosa contra o sol e a identificação precoce de tumores podem fazer diferença.

5. Insensibilidade Congênita à Dor com Anidrose
Não sentir dor parece uma vantagem, mas pode ser extremamente perigoso.
Na Insensibilidade Congênita à Dor com Anidrose, alterações genéticas prejudicam os neurônios envolvidos na percepção da dor e no controle da transpiração.
A pessoa pode sofrer queimaduras, fraturas e outros ferimentos sem perceber. Como também pode ter dificuldade ou incapacidade de suar, existe ainda o risco de aumento perigoso da temperatura corporal.
“A dor é um dos principais sistemas de proteção do corpo”, destaca Zattar.
O tratamento é principalmente preventivo, com atenção constante a ferimentos, temperatura corporal, dentes, ossos e articulações.
6. Hipertricose Lanuginosa Congênita
Na Hipertricose Lanuginosa Congênita, pelos finos crescem de maneira excessiva e generalizada pelo corpo, muitas vezes desde o nascimento ou a infância.
É uma condição extremamente rara. Dependendo da forma genética, também podem aparecer alterações nos dentes.
Algumas formas históricas de hipertricose provavelmente contribuíram para antigas histórias sobre pessoas chamadas de “lobisomens”.
“Hoje sabemos que se trata de uma condição médica, e não de algo sobrenatural”, afirma o geneticista.
O controle é principalmente dermatológico e cosmético, com métodos para remover os pelos.
7. Deficiência de Ribose-5-Fosfato Isomerase
Esta está entre as doenças metabólicas mais raras já descritas, com pouquíssimos pacientes conhecidos.
Ela está ligada a alterações no gene RPIA. Quando uma determinada etapa do metabolismo não funciona corretamente, substâncias podem se acumular e afetar principalmente o sistema nervoso.
Os pacientes podem apresentar atraso do desenvolvimento, epilepsia, alterações da coordenação, rigidez muscular, perda de habilidades e problemas no nervo óptico.
“É um exemplo impressionante de como a alteração de apenas uma reação química entre milhares que acontecem dentro de nossas células pode causar uma doença neurológica inteira”, explica Zattar.
Não há tratamento curativo específico; o cuidado é principalmente para controlar os sintomas.
8. Síndrome de Proteus
Na Síndrome de Proteus, algumas partes do corpo crescem de maneira desproporcional e assimétrica.
A doença é extremamente rara e costuma estar ligada a uma alteração no gene AKT1. Um detalhe importante é que essa alteração pode surgir durante o desenvolvimento, fazendo com que apenas parte das células do corpo a carregue.
Isso é chamado de mosaicismo.
Podem ocorrer aumento de membros, alterações na pele, crescimento excessivo de tecidos e algumas complicações vasculares.
“Duas regiões diferentes do corpo da mesma pessoa podem ter geneticamente populações celulares diferentes”, explica Zattar.
O tratamento varia conforme os problemas apresentados e pode envolver diferentes especialistas.
9. Epidermodisplasia Verruciforme
A Epidermodisplasia Verruciforme é uma doença genética extremamente rara. Existem apenas algumas centenas de casos descritos.
Alterações genéticas fazem com que a pele tenha dificuldade para controlar determinados tipos de HPV, vírus ao qual praticamente todos estamos expostos.
Como resultado, podem surgir muitas lesões semelhantes a verrugas ou placas pelo corpo. Também aumenta o risco de alguns tipos de câncer de pele.
“A mesma infecção viral pode ter consequências totalmente diferentes dependendo da genética do hospedeiro”, afirma Zattar.
O cuidado envolve acompanhamento dermatológico, proteção solar e vigilância para câncer de pele.
10. Síndrome WHIM
A Síndrome WHIM é uma imunodeficiência genética ultrarrara. Ela costuma estar relacionada ao gene CXCR4, que ajuda a controlar a movimentação das células de defesa.
Uma maneira simples de entender o problema é imaginar que parte dos glóbulos brancos fica “presa” na medula óssea, em vez de circular pelo sangue.
Isso favorece infecções recorrentes e pode causar verrugas extensas provocadas pelo HPV.
“O organismo consegue produzir as células de defesa, mas tem dificuldade de liberá-las do lugar onde são produzidas”, explica Zattar.
Existem tratamentos para reduzir as infecções e aumentar a quantidade de células de defesa.
Por que doenças raras são tão difíceis de diagnosticar?
O primeiro problema está justamente na raridade. Um médico pode passar toda a carreira sem encontrar algumas dessas doenças.
Além disso, os primeiros sinais muitas vezes são comuns: atraso do desenvolvimento, fraqueza, dor, baixa estatura, alterações na pele ou infecções recorrentes.
Outro desafio é que a mesma doença genética pode aparecer de maneiras diferentes em pessoas diferentes. Em algumas condições, nem todas as células carregam a alteração genética.
“Muitos pacientes passam pelo que chamamos de ‘odisseia diagnóstica’: consultas com diversos especialistas, exames sucessivos e, algumas vezes, anos até chegar ao diagnóstico correto”, explica Zattar.
Segundo o geneticista, exames como painéis genéticos, exoma e genoma têm ajudado a encurtar esse caminho.
Leitura Recomendada: Caso Alex Escobar: fraqueza que vem e vai, a doença rara que não está nos genes



