Superdotação e rigidez: quando flexibilizar também é um desafio

Quando falamos em superdotação, pensamos em rapidez de raciocínio, facilidade para aprender, criatividade e capacidade de aprofundamento. Falamos muito sobre potencial e pouco sobre dificuldades que podem coexistir com essas capacidades. Uma delas é a rigidez.

É importante dizer que ela não é uma característica obrigatória da superdotação. Pessoas com altas habilidades são diferentes entre si.

Mas, em alguns casos, dificuldades de flexibilidade cognitiva podem aparecer associadas a perfeccionismo, ruminação, necessidade de previsibilidade e sofrimento diante de erros ou mudanças.

Uma pessoa pode compreender problemas extremamente complexos e, ainda assim, ter dificuldade para abandonar uma ideia, aceitar outra perspectiva ou mudar um plano.

Na escola, isso pode aparecer na resistência a diferentes formas de realizar uma tarefa, no sofrimento diante do erro ou na dificuldade de trabalhar em grupo.

Na vida adulta, pode afetar relacionamentos, trabalho e adaptação a situações inesperadas.

Um estudo publicado em 2024 na BMC Psychology, com 207 adolescentes academicamente superdotados, investigou as relações entre flexibilidade cognitiva, perfeccionismo, ruminação e procrastinação.

A flexibilidade apareceu como um potencial fator protetivo, enquanto perfeccionismo negativo e ruminação tiveram papel relevante na rede de dificuldades analisadas.

Isso não significa que a superdotação provoque rigidez.

Significa que alta capacidade intelectual não garante, por si só, flexibilidade emocional ou comportamental.

Esse olhar se torna ainda mais necessário à medida que identificamos mais estudantes.

O Censo Escolar 2025 registrou 56.238 matrículas de alunos com altas habilidades ou superdotação no Brasil. Em 2021, eram 23.758.

Em quatro anos, o número mais que dobrou.

A nova Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação representa um avanço ao prever identificação precoce, atendimento educacional especializado e desenvolvimento integral.

Mas precisamos ir além da identificação.

Isso envolve preparar escolas e profissionais para compreender também dificuldades que podem gerar prejuízos acadêmicos, sociais, emocionais ou funcionais.

E esse cuidado não pode terminar na escola.

Crianças superdotadas tornam-se adultos e idosos superdotados. Políticas públicas de educação, saúde e assistência precisam considerar a neurodiversidade ao longo de toda a vida.

Desenvolver flexibilidade não significa diminuir a intensidade ou tentar mudar quem essa pessoa é. Significa ampliar repertórios, ensinar que o erro faz parte do aprendizado e mostrar que mudar de estratégia ou considerar outra perspectiva não reduz sua capacidade.

A inteligência nos permite enxergar possibilidades complexas.

A flexibilidade nos permite transitar entre elas.

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Dr. Gustavo Gattino.
Dr. Gustavo Gattino

Dr. Gustavo Gattino é doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), graduado em Musicoterapia e professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca. Há mais de duas décadas desenvolve pesquisas sobre desenvolvimento humano, saúde mental, neurodivergência, emoções, comportamento e relações entre música, arte e saúde. É autor de 10 livros e dezenas de artigos científicos, integra o Conselho Mundial da World Federation of Music Therapy (WFMT) e desenvolve pesquisas relacionadas às emoções e às altas habilidades/superdotação, condição com a qual também foi identificado na vida adulta.

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