Quem convive com dor crônica pode se perguntar por que uma pessoa com fibromialgia toma gabapentina, enquanto outra, com o mesmo diagnóstico, usa pregabalina.
Também é comum que o médico substitua um medicamento pelo outro durante o tratamento. Mas será que eles têm o mesmo efeito?
Embora sejam semelhantes em alguns aspectos, gabapentina e pregabalina são medicamentos diferentes, com particularidades na absorção, nas evidências de eficácia e na resposta de cada paciente.
Entender essas diferenças ajuda a compreender por que a escolha do tratamento pode variar mesmo entre pessoas com a mesma condição.
Para que servem a gabapentina e a pregabalina?
Os dois medicamentos pertencem à classe dos gabapentinoides e atuam em mecanismos envolvidos na transmissão dos sinais nervosos. Apesar de serem classificados como anticonvulsivantes, também são utilizados para tratar determinadas condições de dor.
Entre as indicações estão algumas formas de dor neuropática, como a neuropatia diabética dolorosa e a neuralgia pós-herpética, que pode persistir após um episódio de herpes-zóster.
A pregabalina também apresenta evidências de benefício para parte dos pacientes com fibromialgia.
Esses medicamentos podem ser considerados em determinadas situações de dor neuropática relacionada ao câncer. Isso não significa, porém, que sejam indicados para qualquer dor oncológica: a escolha depende da origem da dor e da avaliação clínica.
Portanto, o fato de alguém com câncer utilizar um desses medicamentos não significa que o outro paciente tenha uma doença grave. O que determina a indicação é o quadro clínico, e não apenas o nome do medicamento.
Qual é a diferença entre gabapentina e pregabalina?
Uma das principais diferenças está na absorção. A pregabalina apresenta absorção mais previsível, enquanto a absorção da gabapentina diminui proporcionalmente com o aumento da dose.
Isso influencia a maneira como os medicamentos são utilizados, mas não determina, isoladamente, qual proporcionará maior alívio.
Na fibromialgia, a diferença mais relevante está nas evidências científicas. A pregabalina foi avaliada em ensaios clínicos que demonstraram benefício importante para uma parcela dos pacientes.
Já as evidências disponíveis sobre a gabapentina nessa condição são insuficientes para estabelecer sua eficácia com segurança.
Uma revisão publicada em 2016 concluiu que a pregabalina pode proporcionar alívio expressivo da dor em uma parcela dos adultos com fibromialgia, embora muitos pacientes não obtenham o mesmo benefício.
A revisão sobre gabapentina, publicada em 2017, apontou falta de evidências adequadas para determinar sua eficácia nessa condição.
Isso não permite afirmar que a pregabalina seja sempre superior. A resposta varia conforme o paciente, a condição tratada, a dose e a tolerabilidade.
Qual delas provoca mais efeitos colaterais?
Tontura, sonolência, fadiga e alterações de coordenação podem ocorrer com os dois medicamentos. Esses efeitos merecem atenção porque podem prejudicar atividades cotidianas, principalmente no início do tratamento ou após mudanças na dose.
A pregabalina também está associada a inchaço e ganho de peso. Entretanto, não é correto afirmar, de maneira geral, que a gabapentina provoca mais efeitos adversos ou que a pregabalina é mais bem tolerada por todos.
Como ambos são eliminados principalmente pelos rins, a função renal precisa ser considerada na escolha da dose. A associação com opioides, álcool e outros depressores do sistema nervoso central também exige cuidado, devido ao risco de sedação excessiva e depressão respiratória.
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É possível trocar gabapentina por pregabalina?
Sim, o médico pode considerar a substituição quando o alívio da dor é insuficiente, os efeitos adversos dificultam o tratamento ou outras necessidades clínicas justificam a mudança.
A troca deve ser decidida e orientada pelo médico. Os medicamentos não são equivalentes miligrama por miligrama, e a transição exige avaliação da dose, da função renal, dos demais medicamentos utilizados e da resposta clínica.
O paciente não deve substituir um pelo outro, alterar a dose ou interromper o tratamento por conta própria.
No Brasil, gabapentina e pregabalina estão sujeitas a controle especial e exigem prescrição conforme as normas sanitárias vigentes. O uso deve ocorrer com acompanhamento profissional, para avaliar os benefícios, identificar efeitos adversos e ajustar o tratamento quando necessário.

Por que a gabapentina está disponível no SUS e a pregabalina não?
A diferença está relacionada às decisões de incorporação de medicamentos ao sistema público de saúde. A gabapentina consta na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME), mas o fornecimento depende da indicação e dos critérios aplicáveis.
Em 2021, o Ministério da Saúde decidiu não incorporar a pregabalina ao SUS para o tratamento da dor neuropática e da fibromialgia, após avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).
Isso ajuda a explicar por que alguns pacientes conseguem obter gabapentina na rede pública, enquanto outros precisam avaliar alternativas para ter acesso à pregabalina.
Estar na RENAME, contudo, não garante o fornecimento automático para qualquer diagnóstico. É necessário verificar os critérios e a disponibilidade no serviço de saúde responsável.
Embora pertençam à mesma classe, gabapentina e pregabalina não são a mesma coisa. A escolha entre elas depende das evidências para a condição tratada, da resposta individual, dos efeitos adversos e da avaliação médica.
Compreender essas diferenças ajuda o paciente a participar das decisões sobre o tratamento com mais informação e segurança.
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