Retirada do útero: causa menopausa? Resolve a dor? Entenda

Há algum tempo, acompanhei duas pacientes com dúvidas muito diferentes sobre a retirada do útero.

A primeira convivia com adenomiose, sangramentos importantes e endometriose. Ela havia retirado o útero acreditando que a cirurgia colocaria um ponto final nas dores. Mas, depois do procedimento, continuou sofrendo com sintomas que afetavam sua qualidade de vida.

A segunda tinha outro medo. Precisava avaliar a possibilidade da retirada do útero (histerectomia), mas temia entrar na menopausa e precisar fazer reposição hormonal.

As duas situações mostram como a retirada do útero ainda é cercada de dúvidas, medos e informações incompletas.

Retirar o útero não significa perder os hormônios

Uma pergunta que costumo escutar é: “Se eu retirar o útero, vou entrar na menopausa?”

Na maioria das vezes, não.

O útero tem papel fundamental na gestação. É nele que o bebê se desenvolve durante a gravidez. Mas quem produz os principais hormônios femininos são os ovários.

Por isso, quando apenas o útero é retirado e os ovários são preservados, a mulher continua produzindo hormônios. Nessa situação, normalmente não há necessidade de reposição hormonal apenas por causa da histerectomia.

O que pode acontecer é uma antecipação da menopausa em alguns anos. Mas isso é diferente de entrar imediatamente na menopausa após a cirurgia.

O cenário muda quando os ovários também precisam ser removidos. Aí, sim, ocorre uma queda brusca na produção hormonal, conhecida como menopausa cirúrgica.

Nesses casos, a reposição hormonal pode ser discutida, sempre de forma individualizada.

Quando a dor continua depois da cirurgia

A primeira paciente traz uma lição importante.

Muitas mulheres acreditam que retirar o útero será suficiente para acabar com anos de dor. Em alguns casos, isso acontece. Em outros, a situação é mais complexa.

Isso porque a adenomiose e a endometriose podem aparecer juntas.

A adenomiose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio cresce dentro da musculatura do útero. Já a endometriose acontece quando esse tecido está fora do útero, podendo atingir ovários, intestino, bexiga, nervos e outras estruturas da pelve.

Quando há endometriose associada, retirar apenas o útero pode não resolver o problema.

As lesões de endometriose podem permanecer no organismo e continuar provocando dor pélvica, dor nas relações sexuais, sintomas intestinais e outros desconfortos.

Por isso, antes de uma cirurgia, é essencial entender se existe apenas adenomiose ou se há também endometriose em outros pontos da pelve.

O foco não deve ser apenas retirar um órgão

Quando adenomiose e endometriose estão presentes ao mesmo tempo, o planejamento precisa ser mais cuidadoso.

Dependendo do caso, o tratamento pode envolver a retirada das lesões de endometriose, a abordagem de áreas profundas da pelve, a liberação de estruturas comprometidas pela doença e, quando necessário, o tratamento de lesões intestinais.

Ou seja, o objetivo não deve ser apenas retirar o útero.

O objetivo deve ser tratar corretamente a causa dos sintomas.

Essa diferença é importante porque explica por que algumas mulheres melhoram muito após a histerectomia, enquanto outras continuam com dor mesmo depois da cirurgia.

A decisão precisa olhar para a mulher como um todo

A retirada do útero pode ser uma excelente solução para algumas mulheres. Mas ela precisa ter indicação correta e fazer parte de um plano bem definido.

Se você tem cólicas intensas, sangramentos volumosos, dor durante as relações sexuais, dor pélvica persistente ou sintomas intestinais que pioram no período menstrual, vale buscar uma avaliação especializada.

Quanto mais preciso for o diagnóstico, maiores são as chances de escolher o tratamento adequado.

A melhor cirurgia não é necessariamente a mais extensa. É aquela que trata a causa dos sintomas e respeita as particularidades de cada paciente.

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Dr. Alexandre Nishimura
Dr. Alexandre Nishimura

Médico cirurgião-geral, cirurgião robótico e coloproctologista. Membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Minimamente Invasiva, Robótica e Digital (SOBRACIL). Atua com foco em técnicas avançadas e tratamentos de alta precisão.

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