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Pós-câncer: quando o medo da dor trava a recuperação
O câncer de mama não termina no momento em que o tumor sai da sala de cirurgia. Depois do diagnóstico, das sessões de quimioterapia, da radioterapia e da cirurgia, muitas mulheres ainda enfrentam um capítulo pouco discutido: o desafio de voltar a confiar no próprio corpo.
No Brasil e no mundo, o câncer de mama segue entre os tipos de câncer mais frequentes em mulheres e ainda responde por uma parcela importante das mortes por neoplasia na população feminina.
Felizmente, os tratamentos avançam e a taxa de sobrevivência aumenta. No entanto, cresce também o número de mulheres que convivem com efeitos tardios do tratamento, como dor, limitação de movimento e alterações na rotina.
Entre esses desafios, um fator aparece de forma silenciosa, mas com grande impacto: o medo de se movimentar por causa da dor.
O que acontece com o corpo após a cirurgia de mama
A cirurgia continua entre as principais formas de tratamento do câncer de mama. Ela pode ser mais conservadora, quando preserva parte da mama, ou mais radical, como nos casos de mastectomia.
Muitos procedimentos envolvem retirada de linfonodos na axila e, em vários casos, a paciente ainda passa por radioterapia e outros tratamentos complementares.
Esse conjunto de intervenções pode provocar:
- Limitação para levantar o braço;
- Alterações na postura;
- Fraqueza muscular;
- Alterações de sensibilidade na região;
- Dor persistente;
- Linfedema (inchaço no braço).
Essas mudanças atingem a rotina de forma direta.
Atividades simples, como vestir uma blusa, pentear o cabelo, carregar uma sacola ou abraçar alguém, passam a exigir esforço e, muitas vezes, ficam associadas à dor.
Por isso a reabilitação começa cedo.
A fisioterapia tem objetivo de recuperar a mobilidade, reduzir a dor, proteger o ombro e o braço operado e evitar que as limitações se tornem permanentes.
Quando o medo da dor vira um problema: o que é cinesiofobia
Sentir medo após uma cirurgia é esperado.
Várias mulheres se perguntam se o movimento pode “estragar” a cirurgia, “abrir pontos”, “puxar a cicatriz” ou provocar uma nova lesão.
Em alguns casos, esse medo deixa de ser uma reação de proteção e passa a limitar a vida da paciente.
A esse medo exagerado do movimento associado à dor damos o nome de cinesiofobia.
Na prática, a mulher passa a evitar elevar o braço, alongar, carregar peso ou cumprir o exercício indicado pelo fisioterapeuta, mesmo quando a orientação profissional garante segurança.
Esse comportamento tem consequências:
- Redução de força e resistência;
- Perda de mobilidade no ombro;
- Aumento da dor ao longo do tempo;
- Piora da postura;
- Dificuldade nas atividades de vida diária;
- Queda da qualidade de vida.
O corpo deixa de se mover, os músculos enfraquecem e a dor, em vez de diminuir, tende a se fixar.
O que as pesquisas mostram sobre medo, dor e movimento
Diversos estudos analisam a relação entre dor, medo de se movimentar e reabilitação após o câncer de mama.
Os trabalhos reunidos em revisões recentes avaliam mulheres que passaram por cirurgia mamária, muitas vezes associada à retirada de linfonodos axilares e desenvolvimento de linfedema.
Alguns pontos centrais aparecem de forma consistente:
- Grande parte das mulheres relata dor no membro operado meses após o fim do tratamento oncológico.
- Níveis mais altos de cinesiofobia aparecem associados a maior incapacidade funcional e pior uso do braço.
- Pacientes com medo elevado de movimento apresentam mais sintomas de ansiedade e depressão.
- Entre mulheres com linfedema, a cinesiofobia surge com maior frequência.
Em um dos estudos analisados, quase oito em cada dez participantes relataram algum tipo de dor no membro superior após o tratamento.
A combinação entre dor, medo e crenças negativas sobre o próprio corpo respondeu por parte importante da limitação funcional dessas mulheres.
Outro trabalho avaliou mulheres atendidas em ambulatório de linfedema.
Entre elas, uma parcela expressiva apresentou medo intenso de se movimentar.
Essa mesma parcela apresentou piores resultados em questionários que medem funcionalidade do braço, sintomas de ansiedade e depressão e qualidade de vida.
Em um terceiro estudo, um grupo de mulheres realizou fisioterapia padrão e outro grupo participou de um protocolo com jogos interativos que exigiam movimentos dos membros superiores.
Os dois grupos melhoraram, mas o grupo que participou dos jogos apresentou redução mais acentuada do medo de se movimentar.
O recado dessas pesquisas é claro:
- O medo de sentir dor não é apenas uma sensação emocional. Esse medo interfere na forma como a paciente se move, afeta o tratamento e altera resultados físicos e emocionais.
Como a cinesiofobia interfere na recuperação
Quando a paciente associa movimento à piora da dor ou a riscos para a cirurgia, o corpo entra em modo de defesa.
Ela passa a criar estratégias para “proteger” o lado operado:
- Mantém o ombro mais fechado e elevado;
- Usa mais o lado não operado;
- Evita alongar a região;
- Reduz intensidade e frequência dos exercícios.
Esse padrão, aos poucos, instala:
- Rigidez articular;
- Encurtamento muscular;
- Mais esforço para qualquer tarefa;
- Sensação de cansaço e impotência.
Além disso, o afastamento do movimento reduz a exposição a experiências positivas com o corpo.
A paciente não percebe que é capaz de levantar o braço com segurança, executar tarefas sem “estragar” a cirurgia, ou adaptar atividades com suporte da fisioterapia. O medo ganha força e a confiança diminui.
Essa combinação favorece:
- Persistência da dor;
- Piora da autoimagem;
- Aumento da ansiedade;
- Risco maior de sintomas depressivos.
E o linfedema nessa história?
O linfedema, caracterizado por inchaço no braço após o tratamento, também entra na equação.
Alguns estudos observaram que mulheres com linfedema apresentam índices maiores de cinesiofobia em comparação com aquelas sem essa alteração.
Entre os motivos mais citados pelas pacientes:
- Medo de agravar o inchaço com exercícios
- Receio de que atividades com o braço “puxem” a linfa
- Orientações antigas ou inadequadas que desestimulam o movimento
Por outro lado, pesquisas mais recentes apontam efeito positivo de programas de exercícios bem orientados, inclusive de resistência, em mulheres com linfedema.
O movimento adequado tende a ajudar no controle de sintomas e na funcionalidade, e não a piorar o quadro.
O papel da fisioterapia na quebra do ciclo medo–dor–imobilidade
A reabilitação após o câncer de mama não depende apenas de protocolos de alongamento e fortalecimento. Depende também da forma como a paciente compreende seu corpo e sua dor.
Alguns pontos são fundamentais na atuação fisioterapêutica:
- Educação em dor: explicar de forma acessível o que acontece com músculos, nervos, cicatrizes e articulações após o tratamento. Quanto mais entendimento, menos espaço para interpretações catastróficas.
- Estratégias graduais de movimento: construção de um plano que começa com gestos simples, em amplitudes seguras, avança passo a passo e mostra, na prática, que o corpo pode voltar a se movimentar sem “quebrar”.
- Registro de ganhos concretos: a paciente percebe melhoras quando enxerga pequenas conquistas: alcance maior do braço, menos dor em determinada atividade, maior facilidade na rotina doméstica.
- Atenção às emoções: sintomas de ansiedade e depressão aparecem com frequência nessa fase. Parceria com psicologia e outras áreas de cuidado amplia o suporte e fortalece a adesão.
- Orientação clara sobre linfedema e atividade física: informação atualizada rompe mitos antigos. Movimento correto, com suporte profissional, tende a proteger, não a piorar o inchaço.
Atividade física como aliada, não inimiga
Diversos estudos mostram que a atividade física, adaptada à condição clínica de cada pessoa, reduz risco de recorrência, melhora o humor, combate a fadiga e protege a função do ombro e do braço após o câncer de mama.
Mesmo assim, muitas mulheres abandonam o movimento por medo.
A cinesiofobia aparece como uma das principais barreiras à prática de exercícios nessa população.
Por isso, o recado central para pacientes e famílias é direto:
- Movimento orientado não representa ameaça.
- A ausência de movimento, sim, favorece a piora da dor, rigidez, perda de autonomia e queda de qualidade de vida.
O medo da dor não é sinal de fraqueza. Ele expressa uma tentativa do corpo e da mente de evitar sofrimento.
O problema começa quando esse medo impede a paciente de retomar a própria vida.
No contexto do câncer de mama, a cinesiofobia:
- Aumenta a dificuldade de uso do braço;
- Agrava limitações funcionais;
- Se relaciona a ansiedade, depressão e pior qualidade de vida;
- Pode reforçar mitos sobre movimento, linfedema e risco de lesão.
A fisioterapia tem papel decisivo nesse cenário.
Com informação clara, planejamento individual e respeito ao tempo de cada mulher, o tratamento estimula a retomada do movimento, reduz o medo e favorece uma relação mais confiante com o próprio corpo.
O objetivo final não se limita a um ombro que eleva mais ou a um braço com maior força.
O foco é uma mulher que volta a viver com menos dor, mais autonomia e mais liberdade de movimento.
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Sobre a Dra. Mariana Milazzotto
Fisioterapeuta com quase 20 anos de atuação, mestre em Ciências Médicas e referência nacional no tratamento clínico do lipedema e na reabilitação de mulheres no pós-operatório de câncer de mama. Criadora da Jornada Desvendando o Lipedema, programa que forma fisioterapeutas e terapeutas corporais em práticas de acolhimento, movimento e reabilitação funcional.



