Fissura anal: 6 erros que podem piorar a dor sem você perceber

Quem sente uma fissura anal pode entrar em um ciclo difícil de quebrar: evacuar dói, surge o medo de ir ao banheiro e, para escapar da dor, a pessoa começa a segurar a vontade.

O problema é que algumas dessas tentativas de fugir do desconforto são, na prática, erros que pioram a fissura anal em vez de ajudar.

No consultório, uma das primeiras coisas que procuro entender é como está o hábito intestinal. Não basta olhar para a lesão: também é preciso evitar comportamentos que favoreçam fezes ressecadas, esforço e novos traumas.

Por isso, quero chamar atenção para seis erros bastante comuns.

 1. Segurar a vontade de evacuar para evitar a dor

Eu entendo a lógica: se evacuar dói, parece melhor adiar.

Mas segurar a vontade pode favorecer o ressecamento das fezes. Quando elas ficam mais duras, a evacuação tende a exigir mais esforço, o que pode alimentar novamente o ciclo de dor e trauma.

Minha orientação é simples: não segure a vontade de evacuar.

O objetivo é tornar a evacuação mais fácil, e não evitá-la.

2. Fazer força para conseguir evacuar

Outro erro comum é permanecer no vaso e empurrar com força quando as fezes não saem.

A fissura pode estar relacionada justamente ao esforço durante a evacuação. Por isso, não recomendo insistir dessa maneira.

Uma medida simples que oriento é colocar os pés sobre um pequeno banquinho. Essa posição pode ajudar no alinhamento do reto e facilitar a evacuação sem tanto esforço.

Parece um detalhe, mas pequenos ajustes podem fazer diferença para quem está tentando interromper o ciclo de dor.

3. Descuidar das fibras e da hidratação

Quando existe uma ferida na região anal, é fácil pensar apenas na dor e esquecer que a consistência das fezes também importa.

Eu recomendo uma alimentação rica em fibras, com aveia, frutas, vegetais e sementes, além de uma boa ingestão de líquidos.

Esses cuidados ajudam a manter as fezes mais macias e facilitam a evacuação, reduzindo a necessidade de esforço.

A ideia não é buscar um alimento específico para resolver a fissura. É ajudar o intestino a funcionar melhor para que a passagem das fezes cause menos trauma na região.

4. Achar que todo sangramento é hemorroida

Esse é um engano bastante comum.

Fissura anal e hemorroidas são problemas diferentes, embora possam causar sangramento. Na fissura, a dor intensa durante ou depois da evacuação é uma característica importante, e pode haver pequeno sangramento vivo.

As hemorroidas, por sua vez, podem provocar sangramento, inchaço e exteriorização, sem necessariamente causar a mesma dor.

Por isso, não recomendo assumir que todo sangramento anal seja hemorroida. Quando existe dor forte ou o sangramento persiste, é importante investigar a causa.

 

5. Esperar demais quando a fissura não melhora

Uma fissura pode apresentar melhora progressiva. Eu costumo observar justamente isso: a dor está diminuindo? O sangramento e a ardência estão ficando menos frequentes?

Esses são sinais favoráveis de cicatrização.

O contrário merece atenção.

Dor persistente por mais de seis semanas, um nódulo endurecido próximo à fissura ou sinais de infecção são alertas de que o problema pode ter se tornado crônico e precisar de uma abordagem específica.

Nesses casos, é importante procurar avaliação médica em vez de simplesmente esperar que o problema desapareça.

6. Achar que fissura crônica significa cirurgia obrigatória

Esse talvez seja um dos maiores motivos de preocupação para quem descobre que a fissura não cicatrizou.

Uma fissura pode ser considerada crônica quando persiste por mais de seis a oito semanas. Mas isso não significa que a cirurgia seja obrigatória.

Existem tratamentos clínicos e procedimentos que podem ser considerados conforme cada caso.

Entre eles está a aplicação de toxina botulínica, que relaxa temporariamente a musculatura do esfíncter anal e pode favorecer a cicatrização.

A cirurgia pode ser indicada quando os tratamentos clínicos não funcionam, mas essa decisão depende da avaliação individual.

Ou seja, chegar à fase crônica não significa automaticamente partir para uma operação. O tratamento precisa levar em conta as características de cada paciente.

A fissura anal pode começar como uma pequena lesão, mas a forma como reagimos à dor pode contribuir para manter o problema.

Segurar a vontade, fazer força e descuidar da consistência das fezes são comportamentos que merecem ser revistos.

E, quando a dor ou o sangramento persistem, não é preciso continuar convivendo com o problema. Uma avaliação com um coloproctologista permite confirmar o diagnóstico e definir o tratamento mais adequado para cada situação.

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Dr. Alexandre Nishimura
Dr. Alexandre Nishimura

Médico cirurgião-geral, cirurgião robótico e coloproctologista. Membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Minimamente Invasiva, Robótica e Digital (SOBRACIL). Atua com foco em técnicas avançadas e tratamentos de alta precisão.

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