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Do provedor ao cuidador: psiquiatra explica como o pai presente muda a família
A evolução da paternidade na família brasileira
Durante muito tempo, o papel do pai esteve associado quase exclusivamente à figura do provedor. Cabia a ele garantir o sustento da família, enquanto os cuidados cotidianos com os filhos eram vistos como uma responsabilidade predominantemente materna.
Ao longo dos últimos anos, no entanto, tenho observado na prática clínica uma mudança importante nessa dinâmica.
Cada vez mais pais participam das consultas, acompanham o desenvolvimento dos filhos, compartilham decisões e assumem um papel ativo no cuidado diário.
Essa transformação representa um avanço importante não apenas para a organização familiar, mas também para a saúde mental de crianças e adultos.
Os números ajudam a explicar esse cenário.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, entre 2000 e 2022, a proporção de domicílios em que o homem era apontado como o responsável pela família caiu de 75,1% para 51,1%.
Ao mesmo tempo, a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho impulsionou uma reorganização dos papéis dentro de casa, tornando mais frequente o compartilhamento das responsabilidades financeiras, dos cuidados e da educação dos filhos.
Paternidade ativa e desenvolvimento infantil
Do ponto de vista da psiquiatria, essa mudança tem um significado profundo.
Hoje, sabemos que o desenvolvimento emocional infantil depende da qualidade dos vínculos estabelecidos com seus principais cuidadores.
A presença afetiva do pai favorece a construção de um ambiente de segurança, previsibilidade e confiança, elementos fundamentais para o desenvolvimento da autoestima, da autonomia, da capacidade de regular emoções e da forma como a criança aprenderá a lidar com desafios ao longo da vida.
Participar da criação de um filho vai muito além de dividir tarefas domésticas.
Significa estar presente nas conversas, acompanhar a rotina escolar, brincar, estabelecer limites, acolher frustrações e celebrar conquistas.
São essas experiências do dia a dia que fortalecem o vínculo familiar e constroem relações de confiança que acompanham a criança por toda a vida.
Quando a presença do pai faz ainda mais diferença
Esse envolvimento torna-se ainda mais relevante quando falamos de crianças com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA), Altas Habilidades/Superdotação ou outros perfis do neurodesenvolvimento.
Nesses casos, a participação ativa do pai contribui para a organização da rotina, fortalece a adesão às intervenções propostas, favorece a regulação emocional e amplia a consistência das estratégias utilizadas pela família.
Quanto mais alinhados estiverem os cuidadores, maiores tendem a ser os benefícios para o desenvolvimento da criança.
A ciência também mostra que essa transformação beneficia os próprios pais.
Homens que vivenciam uma paternidade ativa costumam desenvolver vínculos afetivos mais sólidos com os filhos, ampliar seu repertório emocional e experimentar relações familiares mais saudáveis.
Essa participação pode, inclusive, funcionar como um importante fator de proteção para a própria saúde mental, ao fortalecer o sentimento de pertencimento, propósito e conexão familiar.
Neste Dia dos Pais, mais do que celebrar uma data, vale reconhecer a evolução da paternidade e o impacto que ela produz dentro de casa.
O maior legado de um pai não está apenas na segurança financeira que oferece, mas na presença constante, na disponibilidade emocional e na construção de vínculos que ajudam crianças a crescer com mais segurança, autonomia e equilíbrio.
Cuidar deixou de ser apenas uma demonstração de afeto. Hoje, sabemos que também é uma das formas mais importantes de promover saúde mental dentro da família.
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