Sou dentista e preciso contar uma coisa para quem fuma

Eu queria muito que você não lesse este texto até o fim.

Porque, se você fuma, talvez ele mude alguma coisa — e mudar dá trabalho.

Vou começar confessando uma coisa que poucos dentistas admitem: eu sei que você sabe.

Sei que você sabe que fumar faz mal. Está escrito na carteira, está no comercial, está na boca de todo mundo que te ama e que, com a melhor das intenções, já te encheu a paciência sobre isso.

Eu fui uma dessas pessoas. Durante anos mandei artigo, fiz piada de mau gosto, falei mal de fumante para o meu próprio marido, que fuma desde os tempos de namoro, quando o cigarro nem era tão condenado assim.

Até que um dia, depois de muitos anos de casados, ele me olhou e disse uma frase que eu nunca esqueci:

“Você acha que a gente não sabe que faz mal? Claro que sabe. Quem decidiu parar, já parou. O difícil é quem tenta e não consegue.”

Engoli em seco.

Porque ele estava certo.

E porque eu, com todo o meu diploma, estava sendo só mais um texto chato na vida dele.

Então este aqui não vai ser um texto chato. Prometo.

Primeiro, vou tirar um peso das suas costas.

Você não é fraco, nem relapso, nem burro. O cigarro foi desenhado para te prender.

Aquela primeira tragada libera uma descarga de bem-estar quase imediata — e é honesto reconhecer que existe prazer ali, senão ninguém continuaria.

O problema é que esse prazer dura segundos, e a vontade da próxima tragada chega logo atrás.

Aí vem outra, e outra, e de repente a única coisa que importa é a próxima.

Isso não é falta de força de vontade.

Isso é química fazendo o trabalho dela.

Parar de fumar
A dentista Cristina Miura e o marido / Arquivo pessoal

Muita gente fuma como muleta para a ansiedade ou para controlar o estresse — e até funciona, quimicamente, por uns instantes.

A literatura reconhece esse uso.

Mas é uma armadilha cruel: o cigarro alivia o estresse de hoje e te entrega doenças que vão te estressar muito mais amanhã.

Agora, com a propriedade de quem cuida de bocas há muitos anos, deixa eu te contar o que estou vendo do meu lado da cadeira — sem drama, mas sem maquiar.

Tem um detalhe sobre o cigarro que quase ninguém te contou, e é o mais traiçoeiro de todos.

A nicotina causa vasoconstrição: ela aperta os vasinhos de sangue e faz com que chegue menos oxigênio às suas células.

Na gengiva, isso significa duas coisas perigosas ao mesmo tempo.

Primeiro, suas células de defesa ficam sem combustível para reagir — então as bactérias avançam à vontade.

Segundo, e aqui está a cilada: sua gengiva para de sangrar.

Pode parecer boa notícia.

Não é.

Em quem fuma, gengiva que não sangra muitas vezes não é sinal de saúde. É o cigarro apagando o alarme de incêndio enquanto a casa pega fogo.

Você pode estar perdendo osso de suporte, devagarzinho, sem dor, sem sangramento, acreditando que está tudo bem.

E quando o dente começa a amolecer, boa parte do estrago já está feita, porque o osso perdido pelo tabagismo dificilmente volta, e a gengiva que sumia entre os dentes deixa aqueles espaços escuros que mudam o sorriso para sempre.

Não conto isso para te assustar.

Conto porque, se você for fazer uma avaliação, é exatamente isso que eu quero que você pergunte ao seu dentista.

Mas eu prometi soluções, e olha que coisa linda eu aprendi com uma paciente.

Ela era fumante, daquelas que acordavam moídas de preguiça e diziam:

“Eu preciso fumar pra ficar de pé.”

Um dia parou — de uma vez, por um susto familiar.

E descobriu, espantada, que aquela preguiça toda nunca tinha sido cansaço dela.

Era do cigarro.

A vasoconstrição estava sufocando as células dela de oxigênio o tempo todo.

Hoje ela acorda disposta e vai a pé para o trabalho, uma caminhada de uns 20 minutos.

E me disse uma frase que eu repito para todo paciente:

“Se eu soubesse que essa caminhada me dava o mesmo efeito do cigarro, eu teria parado muito antes.”

Então essa é a primeira coisa que eu peço, e é de graça: beba muita água e caminhe.

A água ajuda seu corpo a eliminar os resíduos do cigarro. A caminhada entrega aquela sensação boa que você procura na tragada — só que melhorando sua imunidade, reduzindo a inflamação, fortalecendo o coração e diminuindo a ansiedade de verdade, sem a conta para pagar depois.

A segunda coisa eu aprendi com um paciente que recaiu.

Ele tinha parado, usado os adesivos, tratado a doença periodontal com ótimos resultados.

Meses depois a doença voltou e eu, intrigada, perguntei o que tinha acontecido.

“Ah, doutora, a casa virou de cabeça pra baixo e eu voltei a fumar.”

O cigarro tinha virado, de novo, a muleta para o estresse — e os adesivos, uma falsa rede de segurança que dizia: “Posso voltar quando quiser, depois eu paro de novo.”

Por isso o meu segundo pedido é menos técnico e mais honesto: descubra por que você fuma.

É ansiedade?

É estresse?

É hábito?

Seja o que for, isso merece ser cuidado de verdade.

Conversando, trocando ideia com pessoas de confiança ou fazendo terapia.

O adesivo trata a nicotina.

Mas não trata o motivo.

E é o motivo que faz a gente voltar.

E se você não fuma e leu até aqui?

Continue assim.

Não experimente — nem o cigarro, nem o vape (que de inofensivo não tem nada, mas isso é assunto para outro dia).

Os poucos segundos de prazer não pagam o que vem depois.

No fundo, eu não acho que a discussão sobre o tabaco deva existir apenas em datas específicas.

Para mim, ela fala sobre vida.

Sobre a chance de envelhecer com saúde, continuar sorrindo e estar por mais tempo ao lado de quem você ama.

Sei que quando se é jovem a gente só pensa no hoje.

Meu convite é simples: pensa um pouquinho no amanhã.

Ele chega.

E se este texto te tocou de algum jeito, faz uma coisa por mim: manda para aquele amigo que você gostaria de ter por perto por muitos anos.

Sem sermão.

Só diz:

“Li isso e lembrei de você.”

O resto, a gente cuida juntos.

— Dra. Cristina Miura

Dra. Cristina Miura é cirurgiã-dentista (CRO-PR 11500), periodontista e implantodontista, com mestrado em Microbiologia. Professora universitária, também se dedica à formação de dentistas e é criadora do Método dos Dentistas que Salvam Dentes, que foca na preservação de dentes naturais.

Este conteúdo pode te interessar: Dente mole em adultos: quando o sinal pode indicar um problema mais sério

Compartilhe este conteúdo
Dra. Cristina Miura.
Dra. Cristina Miura

cirurgiã-dentista (CRO-PR 11500), periodontista e implantodontista, com mestrado em Microbiologia. Professora universitária, também se dedica à formação de dentistas e é criadora do Método dos Dentistas que Salvam Dentes, que foca na preservação de dentes naturais.

VIRE A CHAVE PARA EMAGRECER

INSCRIÇÕES GRATUITAS E VAGAS LIMITADAS