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O laudo de autismo chegou. E agora? O desafio que muitas famílias descobrem depois
Receber o diagnóstico de autismo costuma ser um momento de alívio para muitas famílias. Depois de meses (ou até anos) de dúvidas, o laudo ajuda a explicar comportamentos, dificuldades e necessidades que antes pareciam sem resposta.
Mas especialistas alertam que o maior desafio muitas vezes começa justamente depois dessa etapa.
Embora os diagnósticos estejam cada vez mais frequentes, muitas famílias ainda enfrentam dificuldades para encontrar orientação, acompanhamento e suporte adequados após a confirmação do Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Nos Estados Unidos, dados divulgados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) mostram que 1 em cada 31 crianças de 8 anos está dentro do espectro autista, o maior índice já registrado pela rede de monitoramento da instituição.
No Brasil, o Censo Demográfico 2022 identificou cerca de 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo.
O tema ganha destaque neste 18 de junho, quando é celebrado o Dia do Orgulho Autista, data criada para reforçar o respeito à neurodiversidade e ampliar a discussão sobre inclusão, direitos e qualidade de vida.
O diagnóstico é apenas o ponto de partida
Receber o laudo costuma encerrar uma fase de incertezas para muitas famílias. Mas também marca o início de uma nova etapa, repleta de decisões e adaptações.
Questões como acompanhamento profissional, suporte escolar e estratégias para o dia a dia passam a fazer parte da rotina, muitas vezes sem que pais e responsáveis recebam orientações claras sobre por onde começar.
“O diagnóstico é apenas o ponto de partida. O que realmente influencia o desenvolvimento, a autonomia e a qualidade de vida da pessoa autista é o acesso a um acompanhamento contínuo, individualizado e integrado. Infelizmente, ainda vemos muitas famílias que recebem o laudo e ficam sem orientação sobre os próximos passos”, afirma o psiquiatra Dr. Sérgio Saad.
Segundo o especialista, não existe um único caminho válido para todas as pessoas autistas. O acompanhamento deve considerar características, desafios e objetivos de cada indivíduo.
Dependendo das necessidades identificadas, esse suporte pode envolver diferentes profissionais e abordagens voltadas para aspectos emocionais, educacionais, motores, sensoriais, comunicativos e sociais.
Mais do que seguir uma fórmula pronta, o objetivo é construir estratégias compatíveis com a realidade e as necessidades de cada pessoa.
Saúde emocional também merece atenção
Além das características relacionadas ao espectro, algumas pessoas autistas podem enfrentar desafios emocionais ao longo da vida, especialmente quando convivem com ambientes pouco adaptados às suas necessidades, falta de compreensão ou situações de exclusão social.
Segundo a psicóloga Narielle Costa, esse aspecto nem sempre recebe a atenção necessária.
“Quando falamos em qualidade de vida, precisamos olhar para além dos sintomas. Muitas pessoas autistas enfrentam ansiedade, dificuldades de interação social e sofrimento emocional decorrentes da falta de compreensão do ambiente. O suporte psicológico é fundamental para fortalecer habilidades e promover bem-estar”, explica.
Desenvolvimento envolve diferentes dimensões
Nem todas as dificuldades enfrentadas por pessoas autistas estão ligadas à comunicação ou às interações sociais. Aspectos motores e sensoriais também podem influenciar atividades do cotidiano.
O psicomotricista Luciano França destaca que essas questões merecem atenção durante o acompanhamento.
“Dificuldades relacionadas ao processamento sensorial, coordenação motora e percepção corporal podem interferir na aprendizagem, na comunicação e na autonomia. Por isso, é importante que o cuidado contemple também essas dimensões do desenvolvimento”, afirma.
A avaliação, portanto, precisa ir além do diagnóstico e observar como cada pessoa lida com os desafios do dia a dia.
Inclusão vai além da matrícula na escola
A escola também ocupa papel importante no desenvolvimento de crianças e adolescentes autistas.
Dados do IBGE mostram que a maior parte das pessoas autistas está concentrada nas etapas iniciais da educação básica, período importante para o desenvolvimento de habilidades acadêmicas e sociais.
Para a psicopedagoga Juliana Santos, ainda existem desafios para transformar a inclusão prevista na legislação em uma experiência efetiva dentro das salas de aula.
“Muitas escolas recebem alunos autistas sem formação adequada ou estratégias individualizadas. Inclusão não significa apenas matrícula. É preciso compreender as necessidades específicas de cada estudante para garantir participação e aprendizagem efetiva”, destaca.
Família, escola e profissionais precisam atuar juntos
Outro ponto frequentemente destacado pelos especialistas é a importância da comunicação entre todos os envolvidos no processo de desenvolvimento da pessoa autista.
Segundo a neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, quando as ações acontecem de forma isolada, os resultados tendem a ser mais limitados.
“Quando cada profissional atua isoladamente, os resultados tendem a ser limitados. O desenvolvimento acontece de forma muito mais consistente quando família, escola e equipe clínica compartilham informações, objetivos e estratégias. O autismo exige um olhar integrado para a pessoa, não apenas para o diagnóstico”, explica.
Orgulho autista também passa por inclusão e acesso ao cuidado
Criado por pessoas autistas, o movimento do Orgulho Autista propõe uma mudança de perspectiva: enxergar o autismo não como algo a ser combatido, mas como uma forma legítima de neurodiversidade.
Especialistas destacam, porém, que reconhecer e respeitar a identidade autista não elimina a necessidade de garantir acesso a serviços, inclusão e direitos previstos em lei.
No Brasil, a Lei nº 12.764/2012 reconhece a pessoa com Transtorno do Espectro Autista como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais e estabelece diretrizes para proteção de seus direitos.
Para Silvia Kelly Bosi, a data também é uma oportunidade para ampliar o debate sobre políticas públicas, acolhimento e participação social.
“Respeitar a pessoa autista significa reconhecer sua identidade, mas também assegurar condições para que ela desenvolva seu potencial e exerça seus direitos. O orgulho autista passa pela inclusão, pelo acolhimento e pelo acesso a um cuidado de qualidade ao longo de toda a vida”, conclui Silvia Kelly Bosi.
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