Neurocientista pesquisadora do coronavírus afirma: desafio é vencer a desinformação

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Neurocientista pesquisadora do coronavírus afirma: desafio é vencer a desinformação (Foto: Arquivo Pessoal)

O desafio da pandemia do coronavírus é vencer a desinformação, afirma Mellanie Fontes-Dutra, que é Biomédica, Mestre e Doutora em Neurociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente dedica-se, além da informação à população, ao pós-doutorado em Bioquímica e a coordenação da Rede Análise COVID-19.

Seu trabalho oficial é em um grupo de pesquisa do laboratório do Departamento de Bioquímica da UFRGS, que estuda transtornos do desenvolvimento, como por exemplo, o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Em seu tempo livre, a neurocientista se dedica na divulgação científica sobre a pandemia e o coronavírus nos grupos em que é engajada. “Se tornou algo muito presente em minha vida, especialmente pela necessidade e urgência de esclarecer informações cientificas, tentar aproximar a ciência da sociedade”.

A divulgação científica na pandemia tem sido bastante desafiadora, segundo a biomédica, dado todo o contexto de desinformação. “Porém tem sido gratificante, por ter tantos colegas que criam esse ambiente colaborativo e dão suporte, constroem redes de apoio e vamos trabalhando juntos, para tentar aproximar as pessoas da ciência e vencer a desinformação”.

Mellanie é membro do grupo Infovid, da União Pró Vacina, “Todos pelas Vacinas”. Ela é parte também da Equipe Halo (Team Halo em inglês), iniciativa global da ONU e Vaccine Confidence Project, que conta com um time de profissionais ao redor do mundo.

Eles participam de pesquisas voltadas a vacinas contra o novo coronavírus e aceitaram o desafio de falar de ciência de uma forma simples por meio de vídeos. A doutora ainda mantém um twitter informativo sobre o coronavírus e vacinas.

Mellanie participa de grupos pró vacina (Foto: PXhere)

Ciência contra o coronavírus e a desinformação

A biomédica afirma ser otimista e acredita que nossa espécie se adapta facilmente. “Com essa aproximação da ciência, é possível que a gente construa um caminho mais direcionado ao progresso da sociedade”.

E continua: “Estamos em uma situação de crise e vemos como certos tipos de gestão agravam essa situação. Uma gestão diferente contribuiria para um enfrentamento melhor”.

Ela afirma que devemos agir como sociedade, com deveres e direitos. “E um dos nossos deveres é prezar pela saúde e isso não deveria ser algo penoso, fazer o que for necessário para que esteja mais protegida”.

Ela se mostra inconformada com a dificuldade em conscientizar as pessoas sobre as medidas de enfrentamento e ao mesmo tempo ver tanta gente se posicionando contra. “Isso não é ser a favor da sociedade, da saúde. Eu vejo essas pessoas como vítimas da desinformação”.

Por isso é tão importante a aproximação da ciência com a população. “Se todo dia uma pessoa que se der o benefício da dúvida, buscar conteúdos para se informar, pensar diferente graças a um conhecimento que adquiriu respaldado em ciência, são 365 pessoas informadas por ano”.

Cuidados básicos e necessários contra o coronavírus

A pesquisadora lembra que o uso de máscara adequada, de preferência a de sigla PFF2, com certificado de aprovação para ambientes com muitas pessoas.

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A máscara FFP2, recomendada pela especialista (Foto: Google)

Ela recomenda também o distanciamento físico, que sejam evitadas as aglomerações, preferir ambientes arejados, bem ventilados. Igualmente, cuidado em manter a higienização adequada e ficar em casa o máximo possível.

Se você é uma pessoa que precisa sair, ou para trabalhar, ou para outra coisa, se atente ainda mais a essas medidas de enfrentamento. “Que nós possamos respeitar as medidas restritivas”, reforça Mellanie. “Estamos em uma situação tão séria que vai precisar aumentar as restrições e precisamos que a sociedade faça essa adesão”

A vacina, ela reforça, é primordial. “Se você tem dúvida, procure algum divulgador para esclarecer, para conversar. Eu sempre me coloco a disposição pra todo mundo, porque é muito importante que a gente se vacine”.

“Nosso caminho para fora da pandemia do coronavírus passa pela vacinação. Então a gente precisa atingir uma cobertura vacinal, para barrar essa transmissão do vírus e proteger a nossa sociedade”.

Doenças como varíola e poliomielite (paralisia infantil), já foram erradicadas do país graças a vacinação em massa.

Preconceito e barreiras na profissão

Mellanie conta que desde criança sempre teve vontade de seguir uma área de ciências, a princípio desejava ser astronauta, “mas como sempre tive alguns problemas de saúde, achei que não ia conseguir vingar, então comecei a pensar em astronomia”.

No ensino médio, porém, conheceu a área da saúde. “Queria estudar como o corpo funcionava, principalmente a cabeça, o cérebro e o sistema nervoso”. Acabou optando por Biomedicina. “Minha formação foi bem intensa, eu sempre fui uma pessoa muito estudiosa, desde o começo me envolvi em laboratório de pesquisa fazendo iniciação científica”.

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A Doutora em Biomedicina encarou dificuldades por ser mulher e jovem (Foto: Arquivo Pessoal)

Nesta etapa, Mellanie teve o apoio e orientação de muitas mulheres, “o que foi maravilhoso e com certeza tive muitos desafios”. Por ter entrado nova na faculdade, ela precisou amadurecer muito depressa. “Tive que lidar com questões machistas por ser mulher e nova demais pra algumas coisas, segundo eles, mas tive muito suporte e isso me levou adiante”.

A Doutora conta que durante a pós graduação ouviu comentários preconceituosos em alguns eventos que participou. “Algumas palestras eram compostas predominantemente por pessoas do sexo masculino”, ela explica. “Ser mulher e jovem acabou dando margem a comentários que tentavam me desqualificar”, lamenta. “Se você não percebe a atitude machista, isso acaba minando a saúde mental e a autoestima, a segurança”.

Mantendo a saúde mental

Mellanie conta que faz psicoterapia para manter sua saúde mental em dia. “Isso me ajuda bastante a conversar, porque as pessoas veem o profissional da saúde, cientista, divulgador, como aquela pessoa que está propagando informação. Porém ela também é  cidadã”, desabafa. “Compartilha medos, aflições, ansiedades, medo de adoecer. Então é muito importante a gente se cuidar”.

Ela explica que o profissional de saúde está vivendo muito a pandemia, o coronavírus, como cidadão e como profissional. “Trabalhamos com isso, fazemos pesquisas e esclarecemos assuntos”, explica. “Então estamos constantemente pensando em detalhes, consumindo muita informação para gerar conteúdos acessíveis, é muito importante ser compassivos com a gente mesmo também”.

E reforça: “Somos pessoas durante uma pandemia. Tento na medida do possível ter alguns momentos de lazer, mas tem sido muito raro. Procuro ler um livro, mas até os livros agora são sobre o coronavírus, para tentar obter mais informações”. Além da terapia, tocar algum instrumento, bem como fazer alguma atividade que lhe reconecte consigo mesma.

Lições na pandemia do coronavírus

“Minha principal lição é que a gente precisa entender que vivemos em sociedade”. E entender isso é um conceito muito complexo, vai muito além dos nossos direitos e deveres de sociedade, segundo a biomédica. Envolve uma série de comportamentos que precisamos resgatar, a empatia com o outro, “com o fato de que quando a sociedade não está segura, nós também não estamos seguros”.

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Precisamos nos unir como sociedade para o enfrentamento da pandemia (Foto:Cottombro)

“É possível que encaremos outra pandemia lá na frente e como vamos nos portar diante dela?”, questiona. “Nós precisamos cada vez mais fazer resgates históricos, muitas questões que vemos com o coronavírus hoje, também já foram vistas na gripe espanhola, por exemplo”.

“Nós não temos apropriação desse conceito do que é viver em sociedade, logo, quanto mais cedo refletirmos sobre isso e trouxermos a tona a discussão e chegar em alguns direcionamentos, podemos mudar o nosso comportamento e da sociedade”.

Quando as pessoas trabalham juntas, quando elas prezam e agem e prol da sociedade, elas tendem a perseverar e progredir. A própria sociedade está sujeita a pressões seletivas e processos de evolução.

Portanto, precisamos entender que temos que prezar por ela. “E para isso temos os nossos comportamentos individuais com as relações que a gente estabelece com outras pessoas dessa sociedade e agir em favor disso”, conclui Mellanie.

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