Terapia com canabidiol já pode ser amplamente receitado como tratamento alternativo

O fármaco de origem vegetal pode ser receitado para qualquer condição potencialmente benéfica para o paciente

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Terapia com canabidiol já pode ser amplamente receitado como tratamento alternativo (Foto: Prati-Donaduzzi)

O tratamento com canabidiol, do laboratório Prati-Donaduzzi, já pode ser amplamente receitado no Brasil. O composto derivado da planta Cannabis sativa, a maconha, é sugerido como tratamento alternativo de doenças crônicas e esclerose múltipla, entre outras.

Embora sejam produzidos a partir de princípio ativo puro, totalmente livres da substância psicoativa THC (Tetrahidrocanabinol), a venda será permitida apenas com a retenção de receita.

Será necessário emitir receituário tipo B (azul), de numeração controlada, assim como acontece com calmantes, antidepressivos e outros psicoativos que atuam no sistema nervoso central.

O canabidiol

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O canabidiol, segundo estudos, é eficiente contra a síndrome do pânico (Foto: C&E/Divulgação)

Canabidiol é um composto químico encontrado na Cannabis sativa e foi registrado como fitofármaco (fármaco de origem vegetal), sem indicação clínica pré-definida.

De acordo com o resultado de estudos científicos, pode ser utilizado no tratamento de epilepsia, dores crônicas de origem oncológica ou neuropática, esclerose múltipla e sintomas da quimioterapia. Assim como em Parkinson, esquizofrenia, ansiedade, fobias sociais e vários outros distúrbios psiquiátricos e emocionais.

Antipsicóticos convencionais apresentam efeitos adversos como sedação, embotamento cognitivo, distonia e rigidez muscular e tremores. Já o fitofármaco pode ser receitado para qualquer condição potencialmente benéfica para o paciente, sem efeitos colaterais importantes.

A bula do canabidiol avisa que o produto deve ser administrado com cautela em “pacientes com contraceptivos orais, pois o fármaco pode ocasionar redução da eficácia dos anticoncepcionais”.

Lembra ainda que se o paciente for viajar para outro país, precisa se informar se o porte do produto não é ilegal.

Parceria

O remédio é fruto da parceria entre a indústria farmacêutica Prati-Donaduzzi e cientistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), pertencentes a USP (Universidade de São Paulo), que estudam o canabidiol há décadas.

A autorização foi concedida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Prati-Donaduzzi aguarda agora a publicação da Anvisa para o lançamento de duas novas concentrações do produto no mercado, de 20 mg/ml e 50 mg/ml.

De acordo com Eder Fernando Maffissoni, presidente da indústria farmacêutica, a previsão é que o produto de 20 mg/ml chegue ao consumidor custando entre R$ 240 a R$ 280.

Opinião

“A indicação de canabidiol fica a critério exclusivo do médico”, explica Antonio Zuardi, de 73 anos, professor titular de Psiquiatria da FMRP e um dos pioneiros na pesquisa no Brasil e no mundo. “Ele sabe o que pode beneficiar e devolver qualidade de vida ao seu paciente”.

“É uma responsabilidade do médico, compartilhada com o paciente e seus familiares, quando este não tiver condições de decidir sozinho”, orienta Jaime Hallak. Ele é professor titular do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da FMRP, também participante dos estudos.

“Ele parece ser bom para quase tudo, é realmente impressionante”, anima-se o pesquisador Francisco Guimarães, professor titular e orientador da pós-graduação em Farmacologia e Saúde Mental da FMRP.

O Conselho Federal de Medicina (CFM), no entanto, instituiu que o produto só seja usado depois que todas as alternativas de tratamento convencionais já houverem sido testadas sem sucesso.

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“Ele parece ser bom para quase tudo, é realmente impressionante”, segundo Francisco Guimarães, professor da FMRP (Foto: Rodnae)

Estudo histórico

O Brasil é o país pioneiro na identificação e pesquisa desses canabinóides. O laboratório de Zuardi foi o primeiro no mundo a demonstrar os efeitos ansiolíticos (calmantes) e antipsicóticos do canabidiol, nas décadas de  1970 e 1980. Nesta época, o estudo da maconha estava longe de ser bem vista cientificamente como hoje.

Os benefícios da parceria entre Prati-Donaduzzi e USP Ribeirão Preto são imensuráveis, conceituou o gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa, Liberato Brum Junior.

Ele afirma que a sinergia estratégica entre instituição pública e privada propiciou a união de recursos para agilizar o desenvolvimento de produtos contendo canabidiol altamente purificado.

“Principalmente, a realização de ensaios que comprovam a qualidade da formulação”, arrematou.

O psiquiatra e diretor técnico da clínica canábica Gravital, Pietro Vanni, reforça que são diversos os benefícios dos medicamentos à base de cannabis. No entanto, “a falta de reconhecimento do potencial terapêutico tem sido o principal entrave para o tratamento com canabidiol”.

“É uma medicação que trabalha no sistema de homeostase do corpo. Regula a intensidade dos impulsos. Isso se dá na regulação da dor, da fome, bem-estar”, disse o especialista. Ele defende também a discussão imediata do potencial terapêutico do medicamento.

Ele tem certeza que sem discussão não há quebra de preconceito. “Não há grandes desafios, o processo é simples e bem conduzido. O único entrave é a falta de reconhecimento do potencial terapêutico”, acrescentou Vanni.

Dependências químicas

E existem estudos que apontam ainda que o canabidiol pode ser usado justamente como tratamento de certas dependências químicas. De acordo com a clínica Gravital, o canabidiol tem efeito terapêutico na adicção por cocaína, ópio e tabaco.

Sabrina Ribeiro Tibau, observou que a cannabis medicinal tem um potencial terapêutico para muitas doenças “que são de muito difícil contenção, representando uma importante promessa para graves comorbidades”.

“Temos respostas muito boas para pacientes com epilepsias, demências, câncer, dor crônica, autismo, e muitas outras enfermidades”. Tibau garante.

Aliás, aponta que atualmente a ciência consegue comprovar nos estudos mais recentes os benefícios terapêuticos em ação. “Consegue explicar melhor qual é a ação da cannabis medicinal”, disse a médica.

Segundo a especialista, a maconha medicinal é uma promessa muito importante para a epilepsia refratária, por exemplo, que é uma doença de pouco controle com medicações convencionais.

“É uma promessa para demências como Alzheimer e Parkinson, que não têm resposta adequada para os fármacos alopáticos que a gente tem atualmente no mercado”, esclarece.

Afirma que é uma grande promessa para o câncer, pois os estudos mais recentes mostram que a substância que pode agir diretamente nas células doentes, com a ação antiangiogênica. “Isso quer dizer que ela impede que o câncer continue crescendo”, acrescentou.

Outro entusiasta é o Dr. Drauzio Varella, que afirma que “Diversos trabalhos revelaram que os canabinoides naturais ou sintéticos desempenham papel importante na modulação da dor, controle dos movimentos, formação e arquivamento de memórias e assim como na resposta imunológica”.

Segundo o médico, doenças como glaucoma, anorexia associada à Aids, esclerose múltipla, epilepsia, dores crônicas e até Alzheimer podem ser tratadas com eficiência. Outros estudos garantem igualmente que o canabidiol é uma vertente do tratamento eficaz e seguro na síndrome do pânico.

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